12 março 2011

Para o Pequeno Sabotador Interno

Venho por meio desta manifestar o meu repúdio pelo seu recente comportamento. Você estragou tudo, mais uma vez.

Quando me aprontava para sair, disse que eu estava feia. Quando experimentei outra roupa, insinuou que eu já não tinha idade para usar aquilo. Quando cheguei ao meu compromisso, não me deixou falar o que eu havia pensado. E no final ainda conseguiu me fazer ser grossa, apressando as despedidas... Ora, quando você irá crescer? Cansei da sua irresponsabilidade.

Compreenda de uma vez por todas que estamos no mesmo barco. Se afundo, você vai junto - será que esta metáfora não está óbvia o suficiente? Não me venha, portanto, com argumentos de homem-bomba. Se você discorda de mim tanto assim, por que não vai embora daqui de dentro? Abaixe esse punhal, apontado para as minhas costas, e cave com ele um túnel de fuga se for necessário. Não podemos é continuar desse jeito, nessa burra relação autodestrutiva, em que o conteúdo fura a própria embalagem! Até quando você me elogia é com o intuito de me derrubar, já percebeu? Faz com que me acredite linda e sagaz para no instante seguinte rir dos meus tropeços. Dizendo "não falei?", com aquela sua cara de madrasta. Torpedeando minhas forças ainda durante os planos de ataque. Minando meus passos ao pisá-los comigo...

Chega, então. Paremos com isso antes que acabe em tragédia. Antes que, na falta de um gesto meu por você evitado, eu desabe em escombros. Quero, mais do que nunca, me arrepender depois do que digo e do que faço. Abro mão, com alegria, de todos os seus péssimos sábios conselhos. A vida é curta demais para tamanha precaução e longa demais para se repetir os mesmos erros. Sim, cheguei a me divertir em sua companhia, quando ainda conseguia ver algum charme no insucesso. Tempos passados. Hoje, luto com unhas e dentes para que tudo dê certo. E das suas idéias, sempre cheias de lógico pessimismo, preciso distância.

Não pretendo, porém, uma separação litigiosa, pois sei que você conhece todos os meus pontos fracos e aguarda apenas uma boa oportunidade para atingi-los com suas observações de última hora, mortalmente precisas. Proponho, isto sim, um cessar-fogo: você deixa de me dar conselhos e eu imediatamente deixo de segui-los. Parece-me uma trégua justa. Não te desejo mal — entendo que você fez o que tinha de fazer, muitas vezes com a minha velada cumplicidade. Mas estou pronta a ir até o fim nessa luta, a tirar você de mim quanto antes. Saiba que a partir de hoje você está como imigrante ilegal aí dentro. E pode até conseguir fugir por um tempo, escondendo-se em subterfúgios.

Seus dias de impunidade, entretanto, estão contados. Se você não me atrapalhar, é claro.

Fernanda Young

3 comentários:

katy disse...

todos temos um sabotador interno. seria muito bom poder fazer uma trégua com ele ou pelo menos ignorá-lo, embora alguns gritem tão alto que ignorar é impossível!!! bom fim de semana.

Jana disse...

Ah guria, te disse, essa crônica é tudo, morte aos nossos sabotadores internos!

Beijo

Ana D disse...

Por isso gosto dessas garotas: a Young e a del Valle...Só pra gente pensar.