Pedra Chata
01.09.2012
tirinha do Caetano Cury
Era uma vez um sapo e um escorpião que estavam parados à margem de um rio.
- Você me carrega nas costas para eu poder atravessar o rio? - perguntou o escorpião ao sapo.
- De jeito nenhum! Você é a mais traiçoeira das criaturas. Se eu te ajudar, você me mata em vez de me agradecer.
- Mas se eu te picar - respondeu o escorpião com uma voz terna e doce - morro também. Me dê uma carona. Prometo ser bom, meu amigo sapo.
Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e o levou nas costas.
Durante a travessia do rio, porém o sapo sentiu a picada mortal do escorpião.
- Por que você fez isso, escorpião? Agora nós dois morreremos afogados! - disse o sapo.
E o escorpião simplesmente respondeu:
- Por que esta é minha natureza, meu amigo sapo. E eu não posso mudá-la.
Eu tenho vocação pra sapo. Sou justa, lúcida, razoavelmente solidária e desgraçadamente crédula (modesta também, como se pode perceber!)
Tem lá sua beleza, claro. Mas depois de mais uma picada de escorpião eu tô pedindo arrego:
Oração da Moribunda Envenenada
Pai, se é da minha natureza ser tão idiota enton eu te peço mais um anjo de guarda. Um só não tem dado conta de me proteger nem de mim mesma nem dos escorpiões.
Com os bichinhos de verdade é fácil, basta manter distância ou pisar em cima. Mas com esses metafóricos eu sou obrigada a admitir que não sei o que fazer. AMÉM
Hoje aconteceu uma coisa que me deixou meio tristinha:
Desde bem novinha minha sobrinha gosta de brincar com tinta e caneta. Aos 2 aninhos ela riscou o sofá (branco, de couro, na sala!) eu perguntei:
- Carol, o que é isso?
Ela, com o sorrisinho angelical de quem fez uma merda mas sem o menor constrangimento:
- Ca-ne-ta!
Dai que hoje - aos 5 anos - ela limpou os pincéis sujos de guache na minha toalha de banho. Perguntei de novo:
- Carol, o que é isso?
Ela, com o sorrisinho angelical de quem fez uma merda, algum constrangimento e MUITA cara de pau:
- Não fui eu, dindinha!
É isso mesmo, minha gente? 3 anos é o máximo que dura a inocência das crianças?
Tá bom, estou sendo dramática, mas meu coração ficou apertadinho...
Humberto Gessinger
Confessei há uns posts atrás que vivo me metendo em fiascos e que sou absolutamente incapaz de bom senso quando estou curiosa. [ow, ficou bem feio isso de se enfiar em buracos escuros, hein? hohoho]
Poize. Já voltei do país das maravilhas e do lado de cá, da entrada do buraco - já devidamente estapeada pela vida - a ressaca moral é sem precedentes.

Tem piada, já não se lembra do corpo dela. Só se lembra da sensação de lhe tocar. É como se tivesse esquecido a cor dos lençóis duma cama de hotel sem lhe esquecer o conforto. E é altura de se perguntar outra vez porque é que não se apaixonou por ela. Nunca percebeu, mas sabe que esteve sempre quase e nunca aconteceu. Foi um amor estéril, conclui. Os amores estéreis são esses, os que nunca o chegam a ser mas crescem na mesma, talvez como uma flor sem raiz.
Acha que ela também nunca se apaixonou por ele. Aliás, tem a certeza. Ainda bem, pensa. Só assim é que é possível dizer um até amanhã sabendo que é um até nunca. "Um dia destes telefono-te", disse-lhe ele. E ela sorriu sabendo que era mentira. Mas não se importou. Pelo contrário, foi um alívio.
Nunca acreditaram no toque um do outro, mas mesmo assim tocaram-se repetidamente. Precisavam de acreditar num toque qualquer e não havia mais nenhum. Às vezes é assim. Ambos tinham um Amor não correspondido e ninguém se acomoda à falta de correspondência. Aliás, foi nesse quarto de hotel que ela lhe disse que ambos tinham ficado sem casa, mas como ninguém gosta de ficar na rua refugiaram-se ali, num quarto de hotel e um no outro. Ele assumiu-se como um refugiado no Amor e a respiração tornou-se mais lenta. Nesse momento até o corpo amoleceu e precisou de um novo toque para endurecer.
Tinham-se conhecido uns dias antes, ainda ambos eram apenas um caco da destruição de um Amor anterior. Ainda ambos farejavam a cidade como cães anósmicos, à procura do que não havia, e acabaram por roçar um no outro. Tem piada ele já nem se lembra do que bebeu nesse bar. Só se lembra da sensação de estar a fingir um interesse que não tinha e de sentir que ela fingia o mesmo.
Talvez por isso tenham ido para um quarto de hotel: para nenhum deles dar mais de si do que devia. E fecharam-se ali, onde sabiam que o Amor não os encontrava para fingir que nem precisavam dele. Ele sentiu-se mais prostituto. Ela também. E soube bem.
... por conta do livro que estou relendo e da terapia que retomei:
QUANDO NIETZSCHE CHOROU
CONVITE
Vamos, meu amor
nos encontrar às escondidas dos nossos inimigos?
Vamos, vamos, meu amigo
nenhum deles saberá!
Vamos, de um jeito sagaz, armar,
de modo que o rancor não encontre coleguinha,
ressonância, par?
Vamos nos articular, pianinho,
de modo que o orgulho, esse “ervo daninho”,
de sinta sozinho e sem lugar?
Vamos combinar de nos encontrar tão gostoso,
de modo que o garboso, bobo, inútil orgulho,
aquele que sempre superior se sente,
se veja ali, sem ambiente?
Vamos, meu amor,
O amor arapucar,
de modo que a mesquinharia sinta logo que errou de ponto,
que falhou de lugar?
Vamos, meu amor, meu cúmplice,
nos organizar,
Para que a gosma do ressentimento perceba logo
que se enganou de bar?
Vamos logo, amor,
Para um bom lugar, onde a razão conceda ao perdão
o poder do sol,
que é de iluminar?
Sem aqueles demais, só com nós dois,
e em paz,
vamor rir,
rir de amor,
de puro amor,
vamos rir de chorar?
Vamo, amor?
Toda viagem é sem volta e leva sempre ao mesmo lugar: a nós mesmos. Ao final de cada uma, o melhor que podemos esperar é termos nos tornado mais o que somos. Ter alcançado porções mais longínquas de nossa própria geografia, mesmo que esta seja uma floresta densa e sombria. Ter sido ampliado pela experiência de se arriscar a olhar para dentro, escalando nossas próprias montanhas, mais altas que o Everest, e atravessando nossos rios internos a nado...
Eliane Brum
Voltei, pessoas! Desta vez estive pros lados de Alto Paraíso de Goiás e São Jorge.
Sem palavras pq ainda estou olhando muito pra dentro, sabem? rs