30 março 2011

ENTENDENDO TARDIAMENTE

Tem piada, já não se lembra do corpo dela. Só se lembra da sensação de lhe tocar. É como se tivesse esquecido a cor dos lençóis duma cama de hotel sem lhe esquecer o conforto. E é altura de se perguntar outra vez porque é que não se apaixonou por ela. Nunca percebeu, mas sabe que esteve sempre quase e nunca aconteceu. Foi um amor estéril, conclui. Os amores estéreis são esses, os que nunca o chegam a ser mas crescem na mesma, talvez como uma flor sem raiz.

Acha que ela também nunca se apaixonou por ele. Aliás, tem a certeza. Ainda bem, pensa. Só assim é que é possível dizer um até amanhã sabendo que é um até nunca. "Um dia destes telefono-te", disse-lhe ele. E ela sorriu sabendo que era mentira. Mas não se importou. Pelo contrário, foi um alívio.

Nunca acreditaram no toque um do outro, mas mesmo assim tocaram-se repetidamente. Precisavam de acreditar num toque qualquer e não havia mais nenhum. Às vezes é assim. Ambos tinham um Amor não correspondido e ninguém se acomoda à falta de correspondência. Aliás, foi nesse quarto de hotel que ela lhe disse que ambos tinham ficado sem casa, mas como ninguém gosta de ficar na rua refugiaram-se ali, num quarto de hotel e um no outro. Ele assumiu-se como um refugiado no Amor e a respiração tornou-se mais lenta. Nesse momento até o corpo amoleceu e precisou de um novo toque para endurecer.

Tinham-se conhecido uns dias antes, ainda ambos eram apenas um caco da destruição de um Amor anterior. Ainda ambos farejavam a cidade como cães anósmicos, à procura do que não havia, e acabaram por roçar um no outro. Tem piada ele já nem se lembra do que bebeu nesse bar. Só se lembra da sensação de estar a fingir um interesse que não tinha e de sentir que ela fingia o mesmo.

Talvez por isso tenham ido para um quarto de hotel: para nenhum deles dar mais de si do que devia. E fecharam-se ali, onde sabiam que o Amor não os encontrava para fingir que nem precisavam dele. Ele sentiu-se mais prostituto. Ela também. E soube bem.

Do Bagaço Amarelo

12 março 2011

Para o Pequeno Sabotador Interno

Venho por meio desta manifestar o meu repúdio pelo seu recente comportamento. Você estragou tudo, mais uma vez.

Quando me aprontava para sair, disse que eu estava feia. Quando experimentei outra roupa, insinuou que eu já não tinha idade para usar aquilo. Quando cheguei ao meu compromisso, não me deixou falar o que eu havia pensado. E no final ainda conseguiu me fazer ser grossa, apressando as despedidas... Ora, quando você irá crescer? Cansei da sua irresponsabilidade.

Compreenda de uma vez por todas que estamos no mesmo barco. Se afundo, você vai junto - será que esta metáfora não está óbvia o suficiente? Não me venha, portanto, com argumentos de homem-bomba. Se você discorda de mim tanto assim, por que não vai embora daqui de dentro? Abaixe esse punhal, apontado para as minhas costas, e cave com ele um túnel de fuga se for necessário. Não podemos é continuar desse jeito, nessa burra relação autodestrutiva, em que o conteúdo fura a própria embalagem! Até quando você me elogia é com o intuito de me derrubar, já percebeu? Faz com que me acredite linda e sagaz para no instante seguinte rir dos meus tropeços. Dizendo "não falei?", com aquela sua cara de madrasta. Torpedeando minhas forças ainda durante os planos de ataque. Minando meus passos ao pisá-los comigo...

Chega, então. Paremos com isso antes que acabe em tragédia. Antes que, na falta de um gesto meu por você evitado, eu desabe em escombros. Quero, mais do que nunca, me arrepender depois do que digo e do que faço. Abro mão, com alegria, de todos os seus péssimos sábios conselhos. A vida é curta demais para tamanha precaução e longa demais para se repetir os mesmos erros. Sim, cheguei a me divertir em sua companhia, quando ainda conseguia ver algum charme no insucesso. Tempos passados. Hoje, luto com unhas e dentes para que tudo dê certo. E das suas idéias, sempre cheias de lógico pessimismo, preciso distância.

Não pretendo, porém, uma separação litigiosa, pois sei que você conhece todos os meus pontos fracos e aguarda apenas uma boa oportunidade para atingi-los com suas observações de última hora, mortalmente precisas. Proponho, isto sim, um cessar-fogo: você deixa de me dar conselhos e eu imediatamente deixo de segui-los. Parece-me uma trégua justa. Não te desejo mal — entendo que você fez o que tinha de fazer, muitas vezes com a minha velada cumplicidade. Mas estou pronta a ir até o fim nessa luta, a tirar você de mim quanto antes. Saiba que a partir de hoje você está como imigrante ilegal aí dentro. E pode até conseguir fugir por um tempo, escondendo-se em subterfúgios.

Seus dias de impunidade, entretanto, estão contados. Se você não me atrapalhar, é claro.

Fernanda Young

22 fevereiro 2011

SOBRE A INTOLERÂNCIA NOSSA DE CADA DIA

Pra ler ao som de Blues da Piedade, Cazuza

Vcs já receberam um e-mail supostamente enviado por uma psicóloga com o assunto "Cazuza, um idiota morto"? Pois dia desses recebi de novo e de novo eu respondi com cópia pra todos. Eu sempre caio nessa tentação rs

Na primeira vez o "fórum" que se formou foi bem mais legal: discutiu-se a formação do senso crítico do expectador. Todo mundo respeitando as opiniões alheias, com argumentação coerente e tal e tudo. Já na segunda, foi decepcionante: a criatura que replicou sequer leu o que escrevi! Saiu cuspindo frases feitas e sem se dar conta acabou repetindo no final EXATAMENTE o que eu já tinha dito. tsc

Eu confesso que sempre me divirto muito nesses debates virtuais! Acho interessante a reação das pessoas quando seus argumentos são contestados. De maneira geral, mudam o rumo do que está em pauta e simplesmente ignoram o que é dito em contrário do que pensam. Acho interessante² quando alguém me mostra alguma coisa que eu não tenha enxergado ainda.

Confesso também que gosto do papel de advogado do diabo. Não só pelo prazer de contrariar, mas também pelo saudável exercício de ver o outro lado, já que todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto. Idéias muito cristalizadas me atentam, sabe?

Mas o que eu queria contar mesmo é no que vim pensando na volta do trabalho: que a gente tem dificuldade pra aceitar opiniões divergentes é de domínio público. Humano, ridículo e limitado, mas acontece desde que o mundo é mundo. E precisamos fazer alguma coisa com isso!!!

O mundo árabe suporta regimes totalitários há 30 anos precisamente pq o povo perdeu a capacidade de questionar, de divergir. Atrocidades são cometidas em nome de Alah, mentiras são ensinadas de geração em geração, todos são doutrinados à obediência cega... e não só lá: na Tunísia ou no Irã, em Israel ou na Coreia, na Venezuela ou em Cuba, a desgraça dessas sociedades é a mesma: não poder debater suas idéias, não poder se perguntar 'mas e se não for só isso'?

Acabei concluindo que não precisa se chamar Mohamed qualquer coisa, basta ter uma convicção beeeeem enraizada pra gente - e a começar por mim - tentar roubar dos outros o direito de pensar diferente.

♬ Senhor, piedade!
Nos dê grandeza e pouco de coragem! ♬


18 fevereiro 2011

OS ESTATUTOS DO HOMEM

Santiago do Chile, abril de 1964.

Artigo I - Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II - Fica decretado que todos os dias da semana inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III - Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV - Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V - Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI - Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII - Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII - Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX - Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X - Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI - Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII - Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII - Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final - Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Thiago de Mello

31 janeiro 2011

REPUBLICANDO...

... por conta do livro que estou relendo e da terapia que retomei:

QUANDO NIETZSCHE CHOROU

Pauta reincidente na terapia. Diliça ouvir terapeuta impune e sorridentemente dizer que sou "meio Nietzsche"...

- aff, enton tu me acha tão cabeça dura assim?
- vc é brilhante, querida. Quando cuida dos outros.

Taquipariu. E a gente ainda paga pra ouvir isso!

O livro agride, tá? Agride pq eu sou um cadim de cada um das personagens. Sou o cabeça dura do Nietzsche e sou o Breuher a beira de um surto. Sou o Freud que desconfia de motivações apenasmente conscientes. Sou Lou Salomé no seu absoluto domínio de si e Bertha em sobrevida lunática.

Como Nietzsche, também acho que os medos não brotam das trevas... eles são como estrelas, estão sempre ali, obscurecidos pelo clarão do dia;

Como Lou Salomé, também espero o dia feliz em que nem o homem nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas;

Como Breuer, também acredito que todos precisam amar uma alma rica e ousada pelo menos uma vez na vida;

Como Freud, também acho difícil analisar a própria psique, o que seria obviamente facilitado por um guia objetivo e informado;

Como Bertha, não consigo falar meu próprio idioma.

Como pode caber tanta gente numa mesma pessoa? E eu, o que sou no meio disso tudo? Até quando eu vou ser assim, cheia de perguntas inúteis?

Pra vcs algumas pérolas que ainda vão me tirar continuam a me tirar o sono:

"... Desespero é o preço pago pela autoconsciência..."

"Nossa responsabilidade para com a vida é criar o superior e não reproduzir o inferior"

"Qto mais fértil o solo, mais imperdoável é o fracasso em cultiva-lo"

"Talvez viver de maneira segura seja perigoso. Nosso maior desafio é viver a despeito desse fardo."

É frustrante perceber que meus dilemas só mudam de roupa, viu?

20 janeiro 2011

A QUEM INTERESSAR POSSA...

CONVITE

Vamos, meu amor

nos encontrar às escondidas dos nossos inimigos?

Vamos, vamos, meu amigo

nenhum deles saberá!

Vamos, de um jeito sagaz, armar,

de modo que o rancor não encontre coleguinha,

ressonância, par?

Vamos nos articular, pianinho,

de modo que o orgulho, esse “ervo daninho”,

de sinta sozinho e sem lugar?

Vamos combinar de nos encontrar tão gostoso,

de modo que o garboso, bobo, inútil orgulho,

aquele que sempre superior se sente,

se veja ali, sem ambiente?

Vamos, meu amor,

O amor arapucar,

de modo que a mesquinharia sinta logo que errou de ponto,

que falhou de lugar?

Vamos, meu amor, meu cúmplice,

nos organizar,

Para que a gosma do ressentimento perceba logo

que se enganou de bar?

Vamos logo, amor,

Para um bom lugar, onde a razão conceda ao perdão

o poder do sol,

que é de iluminar?

Sem aqueles demais, só com nós dois,

e em paz,

vamor rir,

rir de amor,

de puro amor,

vamos rir de chorar?

Vamo, amor?

Elisa Lucinda em " A Fúria da Beleza"


26 dezembro 2010

INDIGNE-VOUS!

Parece que um livrinho, "quase um panfleto", fez sucesso na França neste Natal. Em 30 páginas um velhinho dizendo às pessoas: Fiquem indignados! Stéphane Hessel incita ao não conformismo político. A matéria que li a respeito segue a mesma linha e até faz uma lista de 10 coisas pra gente se indignar no Brasil.

Mas eu trouxe a coisa pra realidade do meu infinito particular: fiquei pensando em tudo que me tira do sério, lembrei de pessoas e situações que já tiveram esse poder, mas que hoje em dia descansam em paz no meu jardim das indiferenças... me achava a bala que matou Kennedy meio que vitoriosa por enterra-los todos lá - e nem lhes levar flores no dia de finados!!! - até bater os olhos nisso:

A indiferença nos faz menos humanos. A resignação pode nos tornar cúmplices.
Albert Camus

Calmus também estava falando de política, mas sua frase me agrediu assim mesmo. rs

Perdi horas, tristíssima, imaginando quão menos gente me tornei ao aprender a arte de me desligar do que me faz mal. Por outro lado - me consolei - há uma infidade de coisas que quase me cegam o juízo de tanto que irritam. Na verdade antes das lentes de Calmus, antes de considerar que a indignação nos esquenta o sangue, nos mantem vivos, eu só pensava que era um sentimento menor e inútil, já que de maneira geral a gente se gasta sozinho, tomando veneno e esperando que o outro morra. Não é verdade que enquanto a gente definha em ódios, invejinhas e coitadismos os causadores ignoram solenemente nosso calvário?

Mas é verdade também que engolir sapos faz mal pro corpo e pra alma... (Já rascunhei uma tese sobre isso. rs) Há de se encontrar um meio termo razoável.

Portanto, parcos e queridos leitores desse rascunho, o que eu desejo pra 2011 e pro resto de nossas vidas é que a gente nunca perca a capacidade de se indignar:

com gente que destrata garçons, frentistas, caixas de supermercado e etc;
que joga lixo pela janela do carro;
que acha que tem que levar vantagem em tudo;
que não tem controle sobre os próprios filhos;
que reclama do mundo mas não move um músculo pra torna-lo mais habitável;
que não tem paciência com velhos;
que não luta pelo que quer;
que abusa da boa vontade alheia;
que não paga suas dívidas;
que vampiriza os pais, amigos e subordinados;
e claro,
com gente que machuca os outros, gente que não sabe amar

De minha parte, seguirei eternamente indignada com que
dá abraço curto pra não sufocar ;
que não me trata com o respeito que mereço e me nega o pouco que consigo admitir que preciso;
que passa meses sem me ver e quando me encontra não tem nada a dizer;
que não dá feedback;
que "filtra moscas mas engole camelos";
que se encolhe e espera as nabas se resolverem sozinhas;
que faz chantagem emocional;
que diz que não sabe por preguiça de responder ...


Boas entradas pra todos, viu? hihihi

11 dezembro 2010

CLARA DEL VALLE ARMADINEJAD PIMENTEL

Ninguém mais aguenta falar de Morro do Alemão, né? Eu sou assim mesmo, sempre an retard...

Mais uma vez o inferno inteiro vai babar de orgulho de mim, mas eu acho que naquele dia a polícia devia ter atirado na mulambada! Pronto, falei.

Tá armado pq? Tá correndo pq? Fogo neles! DIREITOS HUMANOS SÃO OS NOSSOS!

Eu reconheço que os bandidinhos que ainda estavam lá na hora "da invasão" não são os piores, mas vem cá, ia dar pra prender todo mundo? Se desse, com o sistema penitenciário vigente, é possível recuperar alguém? Reconheço também que enquanto a polícia continuar facilitando a vida de traficantes e fingindo que milicianos não existem, esse povo não tem muita escolha...

Mas eu queria falar mesmo é dessa coisa de "tropa de elite em 3D": onde estavam esses blindados que não entraram em cena antes? (Sabemos que num país que viveu anos de chumbo pega muito mal sugerir que militares policiem civis, mas enfim, a pergunta continua não querendo calar...) Pq da noite para o dia a polícia do RJ ficou bem aparelhada e competente? Pq o disk denúncia bombou daquele jeito? Se todos - polícias, governo, comunidade, imprensa - sempre estiveram no mesmo lugar, pq só agora resolveram agir em conjunto?

Nem estou aqui desmerecendo o trabalho deles, não. Apesar da pilhagem, abusos e propinas, a polícia agiu e isso já é alguma coisa. Mas gentem, quantos morros existem no RJ? E quando passar a copa e as olimpíadas, vai voltar ao mesmo caos de sempre? Aliás, de sempre não, com mais um rombo orçamentário para cobrir.


Não precisa ser capitão do BOPE pra saber que bandido só é muito macho e perigoso quando está dando ordens pelo celular. Desarmado é como qualquer mortal: vai correr enquanto tiver pernas! Parece meio óbvio que enquanto for fácil conseguir armamento pesado, não vai ter UPP que dê conta. E enquanto o comércio de drogas for lucrativo, não há motivos pra essa gente querer outra vida.

Pacificação de favelas é um projeto de longuíssimo prazo e demanda várias frentes de atuação: educação, inclusão sócio-cultural, reestruturação familiar... não se resolve num só mandato. Talvez nem em 10.

28 novembro 2010

CANÇÃO DA DESPEDIDA

Vinícius de Moraes disse e Can repete com confiança: domingo é dia que não quer ver ninguém bem. 

De maneira geral eu até concordo com eles. Mas hoje - em descarada afronta ao postulado do poetinha - me aconteceu algo bem feliz: um lapso de lucidez, um passo a frente apesar dos meus tantos enguiços. Deixa eu contar:

Meus parcos e queridos leitores sabem que eu o-d-e-i-o coitadismo. E foi só por isso que tentei manter a dignidade e não contabilizei aqui todos os hectares de capim que comi por conta de cabeça de bacalhau. 

Eu saí da estrada há muito tempo atrás
Indo atrás de uma miragem que desapareceu
Só os loucos acreditam em fantasmas
Como amor eterno que alguém prometeu
Eu dei mais do que podia e isso não bastou
Mas um dia a gente acorda e a febre já passou... 


Pois passei esses meses todos praguejando baixo, humilhadinha e perplexa com tudo que (não!) aconteceu. Procurei não encher as pessoas com essa história, mas a verdade é que passei beeeem mais tempo do que o aceitável de luto. 

Dessa vez perdi o rumo e a medida
Fiquei tão fraco quanto alguém pode ficar
Nessa viagem quase cego eu te seguia
E fazia quase tudo pra agradar
Eu tentava acreditar que isso é que era amor
Eu estive tão doente e agora já passou... 


Verdade também que eu estava enlutada mas não estava dormindo de modo que à revelia de todos os prognósticos conheci um mocinho que ajudou bastante no processo de desapego hohoho Dai que mocinho novo + meu esforço pessoal + passar do tempo = serenidade!

Hoje me dei conta que cabeça de bacalhau descansa em paz,  no Céu dos Interesses Unilaterais e como eu não estou mais bancando a viúva inconsolável, nada mais prende essa alma à terra e ela pode finalmente encontrar a luz e parar de me assombrar. 

hoje estou de volta à vida e pra você essa é a canção da despedida!!! 

N.A.: Seria desonesto de minha parte omitir que o mocinho novo em questão está de malas prontas pro Inferno do Bem Feito, Eu Te Avisei! tsc Parece que ele não quer ser nada além de um coadjuvante. (e que eu não aprendi tudo que devia sobre "reincidências" tsc²)

11 novembro 2010

MEMORIA SENSORIAL

Eu viajo nas possibilidades do cérebro humano... uma perfeição inalcançável. De tudo que ele consegue fazer sem a gente entender perfeitamente como e pq, o mais legal pra mim é linkar os sentidos às coisas que nos acontecem.

O meu sentido preferido é o TATO. Toque é TUDO nesta vida... hum... Sou dessas que enxergam com as mãos, sabe como? Maaans quando o assunto é lembrança, é o meu OLFATO quem dá show: se eu sentir o cheiro, sou capaz de lembrar de vários detalhes. Voltar no tempo mesmo. Sensacional

Tem um creme de cabelo que eu usava quando ensino médio ainda era 2º grau. Tem mó tempão já, mas é só ve-lo na prateleira que eu abro o frasco pra sentir o cheiro de algas marinhas!(quem sabe qual o verdadeiro cheiro de algas marinhas???) Consigo até ver o uniforme, os cadernos sobre a cama, o estojinho retangular onde só cabiam 3 canetas... 

E os perfumes? Atualmente tenho 14 e praticamente todos eles me lembram alguma coisa. E exatamente por isso eu não consigo jogar o frasco fora! Quando passa da metade eu começo a - sovinamente - economizar... Tenho ainda um que ganhei no meu aniversario de 15 anos. Ele é a única lembrança forte que tenho do dia. 

Cheiro de couro lembra uma bota branca escalafobética q eu tive;

Cheiro de Farinha Lactea lembra a minha vó;

Cheiro de cloro lembra meus tempos de natação. brrrrr odeio água fria!

Cheiro de Caladryl lembra verão em Cabo Frio;

Cheiro de cuba-libre lembra um porre fe-lo-me-nal e me embrulha o estômago;

Cheiro de omelete beeem tostadinho lembra um cara que morou comigo na época da faculdade;

Cheiro de Vick lembra a Beatriz, o Dudu e nariz entupido de noite...

Estou republicando isso que escrevi em 2005 só pra contar uma coisa que me aconteceu hoje. Mas queria dizer antes que não tenho mais 14 frascos de perfumes, que já joguei fora esse que ganhei aos 15 anos mas ainda economizo quando um deles chega na metade.

Bem, bora lá: estava eu tentando dormir no trajeto pra o fábrica quando entra no onibus um ser h-i-p-e-r cheiroso. Não abri os olhos pra ver quem era pq eu me conheço, sei que ia começar a fantasiar coisas só por conta disso. Dai que me lembrei instantaneamente de um outro ser que não vejo há anos - que, aliás, mal falo hoje em dia - e que usava o mesmo perfume. 

Pois lembrei com riqueza de detalhes e passei o dia todo assombrada pelo cheiro de Litlle Ghost Ghost. tsc Oscilando entre a raiva de não poder fazer nada pra me livrar disso e a curiosidade por tudo que podia ter sido e não foi. 

COMO ASSIM, BIAL? Como assim um mísero perfume tem o poder de neutralizar tudo de tosco que aconteceu e me despertar as querências desse jeito?

N.A: vcs sabem que nome tem isso, né? Capetice, minha gente. Estou
caçando piolho em cobra, roubando de mim mesma, procurando sarna pra me coçar...

05 novembro 2010

Toda viagem é sem volta e leva sempre ao mesmo lugar: a nós mesmos. Ao final de cada uma, o melhor que podemos esperar é termos nos tornado mais o que somos. Ter alcançado porções mais longínquas de nossa própria geografia, mesmo que esta seja uma floresta densa e sombria. Ter sido ampliado pela experiência de se arriscar a olhar para dentro, escalando nossas próprias montanhas, mais altas que o Everest, e atravessando nossos rios internos a nado...

Eliane Brum

Voltei, pessoas! Desta vez estive pros lados de Alto Paraíso de Goiás e São Jorge.

Sem palavras pq ainda estou olhando muito pra dentro, sabem? rs

14 outubro 2010

O DONO DO MANUAL

Ivan Martins escreveu essa semana em sua coluna na Época sobre um tipo raro de homem - estimo que cada mulher conheça um só. Dois, se tiver sorte - aquele que nem é o mais legal, nem o mais bonito, muito menos o mais bonzinho, mas é de quem teremos saudades e-t-e-r-n-a-s: o dono do manual é o ser que aprendeu direitinho como a gente funciona e se esforça para que a gente SEMPRE funcione BEM hohoho

Dai que fiquei pensando, morta de tristeza, que nunca mais vou sequer falar com o dono do meu manual tsc Nem é uma tristeza doída - que pra nós não tinha outro fim possível, é só uma constatação. Uma constatação-resignada-que-me-leva-a-divagar: ♬ se tudo que eu preciso se parece, pq que não se junta tudo numa coisa só??? ♬

Não ia ser perfeito se o dono do manual morasse conosco? Se fosse ele também aquele que nos mata de rir? E que fosse também aquele que nos apoia em nossos projetos, entende nossos motivos e esculacha sempre que é preciso?

Por falta do que dizer, deixo procês o finalzinho do texto de Ivan:

Portanto, garota, quando você perceber que, na hora H o seu sujeito não sabe o que fazer com as mãos, tente acalmá-lo. Talvez você não tenha notado, mas ele está folheando dois manuais ao mesmo tempo, o seu e o dele. E os homens, como se sabe, não são muito bons quando se trata de fazer duas coisas ao mesmo tempo.

30 setembro 2010

SE O INESPERADO QUER CHEGAR, EU DEIXO!

Eu sempre uso os mesmos versos de Calcanhoto para entrelinhar as coisas que me acontecem assim, naturalmente, na simplicidade, sem aqueles enguiços irritantes que são uma constante na minha vida... 

Pois aconteceu de novo, minha gente. Parece outra "pequena epifania" mas ainda é cedo demais pra prever se vai acabar como a do Caio F... Aconteceu sem um sino pra tocar, sem que o chão tivesse estrelas, sem que houvesse nenhum drama!!!

Tô achando tudo tão leve... 

♬  Será que a gente é louca ou lúcida quando quer que tudo vire música? 

26 setembro 2010

VR MOTO FEST

Frejat esteve na terrinha outra vez. E outra vez eu fui ve-lo.

Era um encontro nacional de motociclistas (sim, aquele povo que se veste de couro e tem aquelas motos que parecem carros disfarçados!);

O tempo estava nada convidativo;

Talinha - que eu sempre carrego pra esses programas de índio - não quis ir;

Havia uma micro possibilidade de encontrar cabeça de bacalhau - a quem nunca mais vi e por força do treinamento de desapego, talvez fosse melhor continuar não vendo.

Mas eu fui assim mesmo, pq por Roberto Frejat ♬ eu aceitaria a vida como ela é ♬... rs

O show, claro, foi perfeito como sempre. Mas o que eu queria mesmo contar é que tive que rever meus (pré) conceitos: sai de casa convicta que seria mais uma festa estranha com gente esquisita e com a idéia de apenas de ir ver meu cinquentão preferido e depois pular na cama quentinha do albergue da Lou mas pouco tempo antes do show acabar, já prestes a virar abórora - a poucos minutos daquela hora em que começo a assumir minha velhice e perturbar as pessoas pra ir embora - eu percebo um mocinho vestido a carater para o evento me olhando desavergonhada e encantadoramente. Na verdade o mocinho não só olhava desavergonhadamente como também sorriu até não me ser possível ignorar.

Pois eu que admiro cada vez mais as pessoas que fazem alguma coisa com o que querem, lhe retribui com o meu mais desarmado sorriso e isso me deu a oportunidade de conhecer mais um desses tipos sui generis que vezenquando passam pela minha vida pra me lembrar que a gente sempre tem o que aprender. Dai que aprendi já nos primeiros minutos que chama-los de motoqueiros é ofensivo. Motoqueiro é motociclista meia roda, sim? Não cometam o mesmo erro! 

Para o meu espanto, aprendi também que esses motociclistas filiados e fiéis à alguma associação têm uma vida em pararelo! Ao contrário do que minha fantasia imaginava, eles não se vestem de couro e se enfeitam com correntes todos os dias! São bancários, professores, policiais, médicos, engenheiros etc que gostam dessas motos estravagantes e nas horas extra-comerciais se reunem pra gostarem juntos, digamos assim. Trazem suas mulheres e filhos, inclusive.

Minha fantasia - que também associava a eles comportamentos inapropriados, se esfumaçou por completo ao constatar que não vi NENHUMA briga, não vi nenhum casal perdendo a linha, nem gente mais alcoolizada que o razoável, nem a mais remota demonstração de falta de civilidade. Pelo contrário, o mocinho me explicou que de maneira geral eles são bem comprometidos com causas sociais e levam mó a sério as religiosas. 

(A essas alturas pra ser honesta devo acrescentar que pela qualidade do approach valeria a pena considerar o que mais ele poderia me ensinar hohoho)

O fim da noite foi decepcionante para o mocinho (se fosse diferente não seria eu, né?) mas como a vida tira com uma mão e dá com a outra, não é que ele estará a semana inteirinha na cidade para um treinamento da empresa onde trabalha?

Se for bacana, volto pra contar. Se o assunto morrer aqui, das duas uma: ou foi mais bacana que o publicável ou a paisana o mocinho não apresentou o mesmo desempenho.


17 setembro 2010

DOE PALAVRAS

No Dia Mundial de Luta Contra o Câncer, 08 de abril, o Instituto Mário Penna lançou a Campanha “Doe Palavras”. Criativa e inédita, a iniciativa quer incentivar a demonstração de carinho aos que sofrem com a doença. A ideia é gerar um banco de mensagens e pensamentos positivos que transmita aos pacientes esperança, conforto e acolhimento. As mensagens serão recebidas em uma plataforma web e transmitidas em tempo real nos televisores instalados nas dependências do Hospital Mário Penna.  



Ao invés de pedir doações em dinheiro, mantimentos etc., a Campanha apela para o sentimento solidário, se diferenciando por insistir apenas na doação de palavras e de atenção. Segundo o superintendente geral do Instituto Mário Penna, Cássio Eduardo Rosa Resende, palavras expressam sentimentos e por isso se tornam mais significativas do que o dinheiro. “Buscamos uma campanha que trouxesse aos pacientes coisas que o dinheiro não pode comprar, como motivação, carinho e solidariedade. Essas palavras ajudarão aos pacientes e familiares a enfrentar o tratamento com mais coragem”, destacou.  

As mensagens podem ser enviadas diretamente pelo www.doepalavras.com.br ou via Twitter, http://twitter.com/doepalavras.

(aliás, oportunidade i-m-p-e-r-d-í-v-e-l de salvar o twitter da inutilidade completa, não?)

En retard como sempre, só agora que fiquei sabendo... mas antes tarde do que nunca, minha gente!

Divulguem! Participem!

15 setembro 2010

♬ Nem tudo que reluz corrompe
Nem tudo que é bonito aparenta
Nem tudo que é infalível se aguenta

Nem tudo que ilude mente
Nem tudo que é gostoso tá quente
Nem tudo que se encaixa é pra sempre

Nem tudo que é sucesso se esquece
Nem todo pressentimento acontece

Nem tudo que se diz tá dito
Nem tudo que não é você é esquisito
 
Nem tudo que acaba aqui deixa de ser infinito... ♬
Zelia Duncan

Sem mais para o momento.

01 setembro 2010

ODEIO-TE, MEU AMOR!

Dia desses eu tava conversando com a Dani sobre aqueles seres que só desorientam sem trazer nada de bom. São relações exaustivas, irracionais, cheias de não-ditos mas apesar de absolutamente nocivas, contra todo o bom senso e amor próprio, são justamente elas que nos fazem mais vivas... COMO ASSIM, BIAL?

Todo mundo sabe o que é isso, aquele encosto de estimação que não há reza no mundo que exorcize? Vcs já perderam a linha, já se machucaram várias vezes, já tentaram ser civilizados, já disseram tchau mas ninguém vai embora! Minha gente, apego é capetice! Não não pode ser seu, vc nem sabe se quer de verdade mas não largaaaaaa!

Do meu encosto pleno levei quase uma vida pra desapegar. Perdi anos a fio presa sabe Deus a que, e agora que já passou não consigo lembrar de nada que tenha sido realmente do bem nessa história. Agora, com tantos anos de distância emocional, não encontro motivos pra'quela consumição toda.

Já com o encosto sênior tudo sempre me pareceu sob controle, mas a verdade é que além de tempo eu perdi a vergonha da cara, meu bom humor e um naco generoso de tolerância. Não construimos nada mas mesmo assim vezenquando eu ainda me pego com uma saudade fininha. (saudade de que exatamente ainda é um mistério!) Não nos vemos há meses e é a solução pra nós, pq tenho certeza que se a gente retomar o contato vou perder a serenidade.

Eu comecei a pensar nessas coisas recentemente, treinando o desapego de encosto júnior - que é a contra prova disso que estou pensando, que quanto mais esfarrapados os sentimentos, mas força eles têm pra nos prender: andei atrás desse homem um ano inteirinho, esmolando o amor tranquilo que achei que ele podia me trazer. Mas não fiz nada (muito) imbecil, nenhuma loucura. Era uma relação serena, sem grandes variações na CNTP rs Dai que tô fazendo um giga esforço pra esquecer, mas quando lembro eu só lamento o que a gente não vai ser e não o que fomos, entendem?

Com pleno e sênior era transparente como água que não tinha futuro e exatamente por isso devo ter vivido tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E com júnior, que era mais próximo da normalidade que todo mundo precisa (?) um sentimento mais maduro e saudável, parece que justamente por ser possível não me gastou tanto.

Que doidera!



22 agosto 2010

RODA VIVA

Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade... Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim.

Caio F.

Pq tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu... tsc

08 agosto 2010

REENCARNAR É BOM! (sic!)

Para ler ao som de Boas Novas, Cazuza

Ivan Martins escreveu sobre isso em sua coluna da Época e eu fiquei dias pensando na coisa.

Demorei pra escrever pq precisava me livrar do bloqueio de publicar "reencarnar", já que não acredito nisso. NÃO ACREDITO! Acho que a doutrina kardecista é um mecanismo psicológico que ameniza a dor de consciência coletiva (é mais fácil acreditar que o homem que esmola na esquina está pagando um carma do que reformar a sociedade de modo a criar um espacinho pra ele) e ajuda a superar a dor da perda, quando quem morre é amado. Pra mim que acredito em cada linha do credo católico, é muito difícil considerar a possibilidade de que os homens se salvam por seus próprios méritos e têm mais de uma vida pra isso. Deus cochila mas não dorme! Não seria justo com os bonzinhos dar várias outras vidas pros mauzinhos se endireitarem.

Isso posto, já posso escrever "reencarnar" sem culpinha cristã e partir pro que eu realmente queria dizer:

Ivan acha que alguns períodos existenciais são tão bem delimitados que pode-se dizer que saimos de uma vida pra começar outra. (Sobre!)vivemos coisas que, de tão fortes, encerram um ciclo e dão início a outro. Eu chamava esses verões - ou invernos! - emocionais de muertes chiquitas, mas sem me atentar muito a quem morria de fato: se eu ou o evento que me tirou dos trilhos da normalidade.

Pois o texto me clareou as idéias. Quem morre sou eu a cada vez que mudo o suficiente pra não reconhecer quem vejo refletido no espelho, a cada vez que dou passos pra fora das grades que me encerram na mesmice das escolhas e achismos! Dai que não tem como pensar nessas coisas e não ser grata à vida que nos dá oportunidades pra viver um ano em segundos e sendo uma só, nos deixar evoluir como se fossem várias.

Fiz umas continhas e parece que estou na minha 4ª encarnação:

minha 1ª morte foi seguidinha à de meu pai. Dormi criança e acordei adulta. Quem compareceu ao velório foi outra pessoa, perdida mas serena. Em cacos mas conformada como um velho; 

a 2ª foi quando a beata que morava em mim descobriu que tanto céu quanto inferno se inauguram pra nós juntamente com a consciência e que já começamos a viver aqui na terra o que escolhermos pra eternidade, seja lá onde for; 

a 3ª foi relativamente recente, entrelinhada aqui no rascunho inclusive. Relutei até a morte, mas aprendi que transgredir é transcender. (ahan, ciente que isso é muito bonito de se dizer mas não de se fazer hohoho)

Quem vive hoje em mim ainda precisa aprender muito mais coisas, desaprender outras tantas, se livrar de velharias e exorcizar um ou dois fantasmas ... no presente momento anda treinando o desapego, buscando um meio termo razoável entre o que é correto e o que é bom. Se eu tiver que morrer por isso, que seja. Por enquanto, ♬ então vamos pra vidaaaaaa !!!! ♬

01 agosto 2010

SERNAMBETIBA, 2900

Para ler ao som de Caminhos do Coração, do Gonzaguinha.

Eu não sei quanto tempo a vida esteve especialmente empenhada em orquestrar nosso encontro mas não poderia deixar de registrar que o trabalho foi engenhoso: eu consigo sair cedo do trabalho numa sexta feira medonha de abafada sem precisar contar uma única mentira, mas pego meia pista na Baixada e só chego onde deveria estar com 40 min de atraso; Mo, que odeia o lugar onde eu deveria estar mas foi me buscar assim mesmo, diz que me esperou no máximo uns 5 min; seguimos para o lugar de onde esperaríamos Can sair a francesa para finalmente nos sentarmos na primeira mesa de canto vaga para matar a pauladas uma saudade de 3 anos de comprimento por 2800 KM de largura aproxidamente. Es-pe-ra-rí-a-mos, pq Can não só não precisou sair a francesa, como já estava a alguns passos da porta quando pudemos avistar seu sorriso-de-gato-da-Alice. Sintonia fina, minha gente! O resto é bobagem...

Pensar em tudo isso me dá um nó na garganta de gratidão, viu? Por absoluta falta de palavras repito o que já disse quando nos conhecemos: essas delicadezas da vida provam pra quem ainda duvida que felidade pode ser simples como um aperto de mão, que afinidade nada tem a ver com constância e que não há um só ser normal nessa blogsfera! 

Desta vez tagarelei horrores, me meti desavergonhadamente na vida(?) profissional de Can, que por sua vez marcou dia e mês para a 1ª aparição do meu mais novo fantasma. (preciso de um nome pra ele, aceito sugestões!) mas apesar de ter gastado tempo demais falando só de mim, a gente pôde constatar que o passar dos anos nos fez muito bem: 

O inferno & céu de todo dia que Mo admistrava ainda existe, mas o fardo agora tem só a metade do peso. (creio que até menos, pq o Rui tem as costas largas!);

Os moinhos de vento de Can tb existem, mas a vida real tem consumido a pobre de tal forma que falta alma - e corpo - pra voragens que não apresentem riscos iminentes. Se isso é bom de tudo eu realmente não sei pq seu coração don quixotesco não foi feito para os aspectos burocháticos da vida. (Sinta-se carinhosamente alfinetada, tri!)

E quanto a mim, peter pan só volta pra casa a noite, pra dormir. Durante o dia sou uma versão "corporativa" de mim mesma. Me tornei um mulherão, que aprendeu a consertar os próprios enguiços (e mandar pro ferro velho o que não tiver salvação!), pisar firme as linhas que estão nas palmas das mãos. Em contrapartida - que a vida só se dá pra quem se deu - agora me acabo atrás de qualquer sensação e nem sempre isso é bom do início ao fim. 

Já estaria do tamanho de meus merecimentos voltar pra casa com um sorriso besta e com a fala meio abaianada. Mas a vida tira com uma mão e dá com a outra, vcs não duvidem disso (o contrário tb é verdadeiro, como se pode ver no post abaixo!). Dai que a logística de Mo não permitiu que a gente fosse ao Morro da Urca, mas os amigos que foram me buscar me deram de presente um por de sol bem embaixo dele, com o Cristo Redentor abençoando de longe.

Um brinde, tri-amadas. Agora até o taxista sabe que somos irmãs \o/