01 agosto 2010

SERNAMBETIBA, 2900

Para ler ao som de Caminhos do Coração, do Gonzaguinha.

Eu não sei quanto tempo a vida esteve especialmente empenhada em orquestrar nosso encontro mas não poderia deixar de registrar que o trabalho foi engenhoso: eu consigo sair cedo do trabalho numa sexta feira medonha de abafada sem precisar contar uma única mentira, mas pego meia pista na Baixada e só chego onde deveria estar com 40 min de atraso; Mo, que odeia o lugar onde eu deveria estar mas foi me buscar assim mesmo, diz que me esperou no máximo uns 5 min; seguimos para o lugar de onde esperaríamos Can sair a francesa para finalmente nos sentarmos na primeira mesa de canto vaga para matar a pauladas uma saudade de 3 anos de comprimento por 2800 KM de largura aproxidamente. Es-pe-ra-rí-a-mos, pq Can não só não precisou sair a francesa, como já estava a alguns passos da porta quando pudemos avistar seu sorriso-de-gato-da-Alice. Sintonia fina, minha gente! O resto é bobagem...

Pensar em tudo isso me dá um nó na garganta de gratidão, viu? Por absoluta falta de palavras repito o que já disse quando nos conhecemos: essas delicadezas da vida provam pra quem ainda duvida que felidade pode ser simples como um aperto de mão, que afinidade nada tem a ver com constância e que não há um só ser normal nessa blogsfera! 

Desta vez tagarelei horrores, me meti desavergonhadamente na vida(?) profissional de Can, que por sua vez marcou dia e mês para a 1ª aparição do meu mais novo fantasma. (preciso de um nome pra ele, aceito sugestões!) mas apesar de ter gastado tempo demais falando só de mim, a gente pôde constatar que o passar dos anos nos fez muito bem: 

O inferno & céu de todo dia que Mo admistrava ainda existe, mas o fardo agora tem só a metade do peso. (creio que até menos, pq o Rui tem as costas largas!);

Os moinhos de vento de Can tb existem, mas a vida real tem consumido a pobre de tal forma que falta alma - e corpo - pra voragens que não apresentem riscos iminentes. Se isso é bom de tudo eu realmente não sei pq seu coração don quixotesco não foi feito para os aspectos burocháticos da vida. (Sinta-se carinhosamente alfinetada, tri!)

E quanto a mim, peter pan só volta pra casa a noite, pra dormir. Durante o dia sou uma versão "corporativa" de mim mesma. Me tornei um mulherão, que aprendeu a consertar os próprios enguiços (e mandar pro ferro velho o que não tiver salvação!), pisar firme as linhas que estão nas palmas das mãos. Em contrapartida - que a vida só se dá pra quem se deu - agora me acabo atrás de qualquer sensação e nem sempre isso é bom do início ao fim. 

Já estaria do tamanho de meus merecimentos voltar pra casa com um sorriso besta e com a fala meio abaianada. Mas a vida tira com uma mão e dá com a outra, vcs não duvidem disso (o contrário tb é verdadeiro, como se pode ver no post abaixo!). Dai que a logística de Mo não permitiu que a gente fosse ao Morro da Urca, mas os amigos que foram me buscar me deram de presente um por de sol bem embaixo dele, com o Cristo Redentor abençoando de longe.

Um brinde, tri-amadas. Agora até o taxista sabe que somos irmãs \o/




28 julho 2010

DIÁRIO DE VIAGEM CAP V

MOMENTO VDM

Conhecem o
Vida de Merda?

É um twittão pra gente reclamona. A matéria que li dizia que o site foi criado pq quem só twitta derrota não tem muitos seguidores e os poucos que seguem zoam um monte... gentem, é melhor que pérolas do orkut! Eu me acabo de rir lá.

Pois bem, a trip teve seu momento VDM mas felizmente foi só no final, pra eu poder chorar na minha cama, único lugar quente & adequado: 

Depois de passar todos esses dias congelando no deserto, piso no Brasil e o primeiro e-mail que recebo é de cabeça de bacalhau dizendo que o fantasma que o assombra há 5 anos fez um BOO diferente. Assim mesmo: 4 linhas tanto objetivas quanto impessoais só pra deixar registrado para a posteridade que enquanto eu revirava todas as lojinhas de San Pedro à caça de uma porra de uma cuia, ele decidia se vai pra Salvador ou se o fantasma vem pro RJ. 

O feladaputa nem se dignou a vir me dizer isso pessoalmenteeeeeee!!!!

(gentem, minhas derrotas não cabem em 240 caracteres, né?)

Manda a verdade que se diga que eu mereci. Mereci não, pq ninguém merece um pé na bunda virtual, mas procurei: perdi os últimos meses esperando contra todo o bom senso, aceitando com alegria franciscana as migalhas dormidas do pão do moço, raspas e restos semanais que nem queimavam nem aqueciam. tsc

Cabeça de bacalhau foi pauta recorrente aki no rascunho. A 1ª criatura que passa pela minha vida e achei que valia o investimento (pq eu achei isso continua um mistério, inda mais agora!). Lady Lispector disse que sempre há um desencontro leve entre as coisas, elas quase se chocam... eu achava que era isso, uma questão de time. Se eu concentrasse toda a paciência que me faltou a vida inteira, se fosse menos imediatista, se eu desse tudo que queria receber, se... se... se... TALVEZ finalmente chegasse a tal da benção da simultaneidade

Ledo engano, pessoas. (merda! Eu não tinha esse tempo todo pra perder!)

Claaaaaaaaro que fiquei tristinha, chorei e tal & tudo. Sigo abraçando a dor, ciente de que o inverno emocional será loooongo. (suspiro resignado) Mas seria muita ingratidão de minha parte voltar de um lugar f-o-d-á-s-t-i-c-o pra enguiçar nesse episódio lamentável hediondo!

Eu vi tanta coisa bonita, La Comuna é tão do bem, deu tudo tão certo, o soroche não derrubou ninguém... não tenho direito MERMO de vestir de novo meu xale de velha carpideira, né? Já gastei mais velas do que o defunto merece. Basta!

Mantra pra situação: sin perder la ternura jamás!!!! Aooooonnn

25 julho 2010

DIÁRIO DE VIAGEM CAP IV

ATACAMA x UYUNI

Desde que soube de sua existência, o Salar de Uyuni me instiga: a 3.650m de altitude, são quase 12.000 km² do que em priscas eras já foi um lago. Estima-se 10 bilhões de toneladas de sal. No caminho geysers, lagunas, uma piscina termal e uma ilha de cactus gigantes. Eu pre-ci-sa-va ver isso com meus próprios olhos!

Estava meio cabreira, afinal ia sozinha e os relatos do mochileiros.com de maneira geral diziam que não passar perrengues nessa travessia era questão de sorte. Como Murphy não me larga, melhor não facilitar: optei pela agência mais famosinha e fosse o que Deus quisesse. Não ia mesmo perder essas belezuras todas só pq o jeep poderia quebrar no meio do nada. "São Miguel Arcanjo, com suas asas protegei-me!" e bora lá! 

Pois vale cada um dos 80.000 chilenos que me custou! Não é papo de turista afetado, juro. Como já disse, adjetivos não dão conta  e só restam perguntas - sem respostas: como assim tanta lagoa no meio do deserto? Como assim as patinhas dos flamingos não congelam? Como assim os bichos não se contaminam com os excessos de lítio, potássio, boro e magnésio? Como assim uma ilha de cactus cresce em cima do sal? Como assim esses guias não se perdem?

Não sei onde fiquei mais deslumbrada pq o Salar de Tara tb é indecente mas acho que foram tipos diferentes de abestamento. Pq NADA no deserto se parece.


Os perrengues são os mesmos do Chile: altitude, vento e frio. O bônus boliviano é que no hay água caliente todos los dias! Entonces baño dia si, dia no. Não chegou a ser um transtorno, manda a verdade que se diga: nos viramos muito bem com lencinhos umidecidos. Dois banhos de gato diários é mais do que se espera nessas condições, convenhamos. (0 nariz a essas alturas está avariado, dai que não se sente cheiro de nada. Mas cheiros haviam: dos geysers certamente se volta fedendo a enxofre!)

20 julho 2010

DIÁRIO DE VIAGEM CAP III

SAN "PERRO" DE ATACAMA

San Pedro de Atacama é uma cidadezinha simpática no meio do nada do altiplano chileno. É toda palha & terra, do jeitinho que imaginei. E dá pra percorrer inteira a pé. A-d-o-r-o cidadezinhas assim, que dão pra conhecer a pé.

A vida só começa depois das 10:00 e ninguém tem pressa pra nada. Particularmente não há pressa alguma para fechar a conta do restaurante! As vezes rola uns blecautes mas ninguém se esquenta. (Teve um minutos antes do derradeiro jogo do Brasil e não houve uma boa alma pra acionar o gerador!)

É o lugar mais democrático que eu já vi: tudo para todos os tamanhos de bolso!

Lá tem mais cachorro do que turista, sério mesmo. E não são aqueles cachorros vadios, esquálidos... todos são bem criados: grandes, gordos e abusados. Estão por toda parte e não incomodam. (Andres, nosso guia em Santiago nos explicou: as ONG´s que cuidam de animais são muito atuantes e maltratar dá problemas)

Dei a sorte de chegar no dia da festa de São Pedro, pescador de hombres. O que encontrei foi uma mescla de cultura atacameña com ícones católicos. Não há o menor indício da beatice cristã, mas o capricho dos ornamentos do santo, do andor e dos estandartes a despeito da quantidade de fiéis para venerá-los me fez pensar que na cidade deve valer a regra do "menos é mais".  


Além dos cachorros, Deus colocou muitos lugares fodásticos ao redor. Não vi tudo, claro. E do que vi, deixo recomendadíssimo:  

Salar de Tara
A uns 170 KM de San Pedro, 4300 mts de altitude, mais de 35.000 hectares. Reza a lenda que lá estão as rochas mais antigas do mundo, as Catedrais de Tara.


Fotos não fazem jus a beleza daquele lugar e nenhum dos meus adjtivos hiperbólicos dá conta de descrever. Fiquei simplesmente hipnotizada.

O deserto te devolve o senso de perspectiva, sabe? Foi bom lembrar que sou um cisco na vastidão desse mundo... bom pra eu me convencer de vez: q-u-a-l-q-u-e-r vento me arrasta! Mas o Senhor do vento não vai me levar aonde as asas de sua proteção não possam me alcançar.

(eu sabia que esses dias  iam me revirar. Fiquei pensando nos meus enguiços, nas ninharias do dia a dia... tudo fica tão insignificante!) 

Pukara de Quitor
A uns 2 KM de San Pedro. Fomos de bicicleta! São 2,5 hectares de ruínas do que no sec XII foi uma fortaleza construída para defender o povo atacameño dos ataques dos incas.


Pedalada bem tranquila! Se eu consegui, qualquer um consegue. Maaaaaaaaaas a gente se atrasou muito na volta, escureceu, o riozinho que atravessamos encheu e nos perdemos. Momento tenso I. Confesso que a lanterninha não era suficiente pra minha miopia e atropelei TODAS as pedrinhas do caminho. Confesso tb que sempre ficava por último e gritava pro Gus me esperar hohoho

14 julho 2010

DIÁRIO DE VIAGEM CAP II

O INFERNO É FRIO

Eu não tenho dúvidas.

Digamos enton que fui abraçar o capeta: nesta terra faz um frio la-za-ren-to, minha gente!

Se chega fácil fácil a 0º e quando desce a menos que isso, parece que o couro já curtiu e a gente nem sente. Não sente nada: as pontas dos dedos, do nariz, das orelhas...

Eu me vestia a la cebola, em camadas. A 1ª é equivalente a calcinha e sutiã no Brasil: calça leggin + 2ª pele + meia de algodão + luva de lã 1/2 dedinho; a 2ª é jeans + moleton flanelado + meia de lã; a 3ª é um casaco pesado + cachecol + luva + gorro. E as vezes rolava até uma 4ª camada, um casaco corta vento + meia de lã de Alpaca. 

Dai que a gente tem noção do passar das horas pelas roupas que vai tirando: saimos de manhã empacotados conforme acima, mas na hora do almoço já dá pra liberar o casaco corta vento e a meia de alpaca; se o sol tiver quente (não se sente que está quente, mas como os lábios ressecam uma quantidade, a gente desconfia) dá pra tirar o moleton de baixo do casaco pesado e o cachecol. Dai já está entardecendo, começa a ventar e precisa vestir tudo de novo.

Cada dia é uma coisa que te gasta: um dia é o ouvido que dói por causa da altitude ou vento; noutro são os dedos dos pés que meia nenhuma dá conta de aquecer; noutro é o nariz que arde pq se respira um ar gelado, noutro é a garganta que reclama o pó que engoliu, TODOS os dias te falta ar pra algum esforço a mais... 

Detalhe importante: não sei se pela temperatura, pela altitude ou pelos dois (mais provável) o meu nariz sangrou! Dai que virou um hábito tão comum como escovar os dentes expelir o sanguinho coagulado de manhã e passar o dia borrifando soro fisiológico. 

Detalhe importante²: só protetor solar não basta. A noite tem que rolar uma manteiga de cacau nos lábios. Pro resto do corpo, não há hidratante que chegue. Fica tudo um casco, mas terei o resto do mês pra cuidar disso.

Detalhe importante³: o vento castigou meus olhos. Deve ser um combo de falta dos óculos de grau + vento + claridade, mas o fato é que também virou hábito lava-los com soro.

Ninharias, por supuesto. Nada que te mate, mas lá pelas 23:00 a gente está suspirando por uma cama quentinha...

Por tudo que se vê, achei um preço justo!!!



11 julho 2010

DIÁRIO DE VIAGEM CAP I

Voltei, meu povo. 

Meu cabelo tá uma palha, minha pele um casco, meu nariz ainda não voltou ao normal, mas estou deslumbrada.

Pra começar o diarinho, vamos às distâncias:

VR X RJ - uns 100 km

RJ X Santiago - uns 3600 km

Santiago X Calama - uns 1500 km

Calama X San Pedro de Atacama - uns 95 km

San Pedro de Atacama X Uyuni - uns 2300 km

(Sem contar os tours próximos a San Pedro, acho que o mais distante foi o Salar de Tara, a 170 km)

Como já avisei, os textos vão ser meio iguais por enquanto... rs


GENTE DO BEM ATRAI GENTE DO BEM

É uma das poucas certezas que tenho nesta vida. Penso que a paz mundial depende tanto de Israel ou EUA quanto de mim e de vc que, com atitudes desarmadas (e num esforço diário para não empacar a vida, nem a própria nem a alheia!) podemos fazer deste mundo um lugar mais habitável.

Dai que eu estava decidida a começar essa trip sozinha. Pesquisei tudo como se fosse mesmo, mas acho que Deus ficou com pena e me mandou não um mas TRÊS companheiros para a viagem \o/

Ana chegou primeiro, depois o Gustavo e (praticamente na semana do embarque!) o Luiz. Brasília, Anápolis e Rio. Se a gente já se conhecesse não teria dado tão certo.

Ana é a alma da trip. Daquele tipo que quer curtir as 24 hrs do dia e acha que se for pra dormir, que seja no Brasil. Não recusou nenhuma cerveza ou pisco sour e voltou levemente frustrada por não ter conseguido cia. pra escalar o vulcão Láscar. Luiz e eu melamos o skibunda que ela pretendia fazer no Vale de la Luna, mas creio que isso ela já superou.

Gustavo é o coração. Sempre carinhoso e interessado em tudo e todos, não se irritou com a minha obesessão por fotos sem sombras e cedeu gentilmente seu soro fisiológico e um cadeado (o meu troquei a senha sem querer e fiquei com medo de usar). Nossa afinidade foi instantanea desde o MSN. 

Luiz é nosso GPS. Mochileiro advanced, sem roteiro nem passagem de volta marcada, ele não riu quando Ana e eu nos perdemos nas 4 ruas de San Pedro, aguentou estoicamente o frio do seu quarto e administrou com diplomacia o princípio de motim no Hotel de Sal... hohoho

La Comuna "tinha tudo em comum e dividia seus bens com alegria": água, hidratante, protetor solar, lencinhos umedecidos, biscoitos, barras de cereal e, quando preciso, até $

Sou muito grata a cada um deles por terem feito essa trip tããããããããão mais fácil.

27 junho 2010

FÉRIAS

Muito esperadas e merecidas³.

Nos próximos dias estarei por ai... 


Já vou avisando aos parcos e queridos leitores que depois dessa trip os post´s ficarão um cadim monotemáticos hohoho

23 junho 2010

SOBRE A NOVA IDADE MÉDIA

Não lembro se já disse aqui, mas eu escuto conversa alheia. Não todas, mas escuto.

Engraçado que sou bem dispersa: não reparo decorações/roupas/cabelos e tenho senso de direção praticamente nulo, mas se eu tiver paradinha esperando alguma coisa (sentadinha é melhor ainda!) e vc tiver falando com alguém perto de mim é bem possível que eu participe do seu assunto. Passivamente, mas com muita atenção. rs Se não me agrada, desplugo fácil também.

Em todos esses anos de exercício em filas, ônibus, consultórios e tals aprendi que o nível do assunto é proporcional à idade de quem conversa: velhinhos não falam só de doenças não!!! Já escutei coisas bacaníssimas, verdadeiras lições de desprendimento, de sabedoria e até de bom humor (aquele que me falta!) Escutar criança também é bem legal... mas no geral adolescentes são chatos e depressivos, mães reclamam de filhos, homens reclamam do emprego/time e mulheres reclamam de homens.

Pois bem, isso foi uma introdução. Quero mesmo é contar uma coisa que ouvi ontem na fila da C & A. Se não tivesse ouvido com as duas orelhas, não ia acreditar que ainda se pensa assim em pleno seculo XXI. 

Duas mulheres, uma de uns 30 anos e outra mais velha, tipo uns 40 assim... ambas reclamando da pãodurice de seus companheiros. Veja bem: companheiros. Não eram maridos! Ambas sem fonte de renda própria, indignadas pq não sabem o salário de seus namoridos. Diziam que já tentaram de tudo: pediram pra ter conta conjunta, fuxicaram nos documentos deles, perguntaram velada e abertamente... segundo a mais velha, só tem "uma idéia pelas coisas que ele compra lá pra casa" A mais nova disse que "deve ser muito, pq ele dá tudo que eu quero". 

Dai elas partiram pras confissões, como faziam pra arrancar dinheiro deles. Mentiras, chantagens, pequenos furtos... La-men-tá-vel! Lá pelas tantas a mais nova cogitou arrumar um emprego, pq ficava irritada cada vez que o cara reclamava para pagar a fatura do cartão DELA.

Até então eu estava escutando envergonhada, mas depois fiquei sinceramente interessada. Merece especulação, oras! Mulheres saudáveis, relativamente jovens, solteiras e desempregadas vivendo sob o financiamento de homens que não são seus pais ou parentes. Jurava que isso só acontecia na classe AA. Pra mim a plebe só se juntava pra dividir despesas hohoho 

(Tá, não é só pra dividir despesas que o povo se junta, mas enfim... eu não imaginava que pobre também bancava mulher sem estar casado com ela. E na minha eterna polianice não imaginava MESMO que mulheres ainda pudessem achar que homens tem obrigação de sustenta-las.)

Bem, não dá pra generalizar. São apenas dois casais!

O fato é que mesmo fazendo todo o esforço (possível!) pra não julgar, voltei pra casa pensando em quantas mulheres gostariam de uma "fonte de financiamento" dessas... sim, pq as que fazem os namorados de taxi, as que se ofendem em rachar as despesas (fora as de motel, peloamor!) e não tem escrúpulos para gastar o suado dinheirinho alheio-mas-não-tão-alheio-assim, estão a um passo curto das minhas colegas de fila...

Não?

31 maio 2010

PERTO DEMAIS

Dizem que intimidade é uma merda e as vezes é mesmo. Mas em outras tantas - e não poucas! - é justamente ela que abre caminho pro delicado da vida...

Ontem Biel veio me ver. Biel mora em BH e sempre que está na terrinha faça chuva ou faça sol ele vem me ver. Sagrado. Quase um ritual. Sem obrigação alguma, pelo simples prazer de estar. 

Ele vem, me diz o que anda lendo; me conta algum surto de mau-mocismo (invariavelmente provocado pelo mau atendimento prestado por alguma loja/empresa: ele tem um pára-raios para problemas dignos de PROCON); me dá notícias da vó; pergunta sobre alguns conhecidos em quem nunca mais pousamos os olhos... eu lhe conto dos meus enguiços & achismos e quando nos damos conta já se passaram hooooras!

Ontem não foi diferente. Fora um detalhe que, aliás, se não escrevesse me escaparia: estava eu repassando os fatos novos da minha historinha novelesca quando pisca a janelinha do MSN. Era cabeça de bacalhau - a quem não via há uma semana e tinha uma vaga esperancinha de ver ainda aquela noite.

Não me ocorreu conversar com ele. Resmunguei mentalmente um "mas isso são horas, seu feladaputa?!" e só. Eu que acho o fim do mundo ter visita e ficar no tel. mais do que o extremamente necessário, nunca-jamais-em-tempo-algum ia pedir licença a Biel pra papear no MSN, nem se fosse com sua Santidade.

Mas era o meu cabeça de bacalhau, né? Precisava pelo menos digitar um "a gente se fala daqui a pouco, estou com visitas" Enquanto fazia isso, Biel se despediu com a placidez de anjo que lhe é peculiar (bem, que é peculiar pelo menos a maior parte do tempo rs) me deixou uns livros e se foi.

Sem melindres, sem crise. Não fiquei com vergonha e tenho absoluta certeza que ele não se sentiu preterido. Antoine de Saint de Exupery diz que
existe uma altitude de relações onde o reconhecimento perde todo o sentido. É o nosso caso. Nossa amizade se eleva sobre os imperativos do aqui-agora e sobrevive, ilesa, há meeeeeses sem contato.

No mesmo livro aprendi que a verdade é o que simplifica o mundo e não o que gera o caos. Biel e eu estamos treinando...



24 maio 2010

SUBMISSION

Esse curta de apenas 10 min. custou a vida do cineasta Theo Van Gogh. Foi assassinado numa manhã de 2004 em Amsterdã por um jovem muçulmano indignado com as verdades do Alcorão expressas sem a devida deferência.

Tive a sorte de nascer no Brasil, um país cheio de defeitos mas poupado da desgraça que é fundamentalismo religioso. Por aqui mata-se por ninharia como em qualquer lugar do mundo, mata-se por covardia, por desespero, por despreparo... mas não em nome de Deus. Por aqui os falsos deuses atendem por vários nomes, nomes próprios. Quase todos tem CPF. Alguns até CNPJ!

O Islã me intriga mais até do que o Judaísmo. O Deus dos judeus nem sempre é pai. Mas parece-me que o dos muçulmanos nunca é. (manda a verdade que se diga: num passado nem tão pretérito assim, o Deus dos católicos também não parecia ser... tsc)

Em nome de Allah milhões de homens e mulheres vivem encerrados na mais completa ignorância, praticando uma fé farisaica, limitante, irracional até. E o pior: a grande maioria jamais vai se dar conta disso!

Em nome de Allah povoados inteiros se conformam com o seu atraso, justificam sua crueldade sem nome, reincidindo geração após geração nos mesmos erros.

Não é possível que isso seja vontade de Deus! Não é.

O documentário tem os dez dedos de Ayaan Hirsi Ali, uma somali que se refugiou na Holanda. Ela também foi condenada pelo mesmo "crime" de Theo. Sua sentença de morte foi cravada no peito do cineasta sob a ponta da faca que o degolou! O objetivo de Submission era chamar a atenção para a indigência em que vivem boa parte das mulheres muçulmanas. Válido, claro. Qualquer dedo de se mova já é alguma coisa. 




G-e-n-i-a-l tatuar frases do Alcorão no corpo de uma mulher velada com uma burca transparente! A imagem tem força própria! Se o filme não tivesse sequer uma frase ainda assim seria eloquente!

Como não-muçulmana, o que achei lamentável foi essa mulher se dirigir a Allah acreditando mesmo que é Ele quem a sujeita dessa forma.

"O veredicto que matou minha fé no amor está em seu livro sagrado!"

Tristíssimo.

13 maio 2010

O MELHOR MÉTODO ANTICONCEPCIONAL DO MUNDO

A Época publicou uma matéria com esse título dia desses.

Alguém criou um blog pra publicar as capetices que suas crianças já aprontaram e Letícia Sorg especula em seu texto que talvez depois de ver tantas lambanças as mulheres pensem melhor antes de engravidar... pelo nome e pelo pouco que entendi, a idéia é mostrar o $ prejuízo $ que é ter filhos...

Fui lá e me acabei. Gentem, não é possível que crianças façam tanto estrago!!! rs Se as legendas eram tão boas quanto as fotos jamais saberei pq eu não sei lhufas de inglês, mas não tenho dúvidas que os pais que enviam essas fotos também se divertem muito.

Tá bom, é engraçado. Mas deve dar uma vontadinha de chorar a pessoa se distrair um pouquinho e encontrar isso:





Vamu combiná? Onde estavam os pais dessas criaturas? Na hora exata da façanha, claro, estavam bem longe. Mas e antes? E depois?

Dani disse que "essas coisas acontecem em um minuto" e eu acredito. Mas pelo que ouço por ai parece que há uma certa vaidade - ou mau hábito arraigado - de alguns pais em dizer que suas crianças são impossíveis. Há também aquela raça que acha que educar é tarefa da escola. Fora aqueles que mesmo adultos ainda precisam que alguém lhes imponha os limites... a pobre criança, vítima de pais assim, pode agir diferente?

Overpensando: achando muito normal & engraçadinho dizer que meus-filhos-me-arruinaram a humanidade caminha pra onde?

(tá, meio ranzinza o texto... mas enfim)

30 abril 2010

LEGION

Foi o filme que salvou meu domingo. (Pra ser mais precisa, uma mísera frase nos salvou - a mim e ao domingo - do desperdício total)

Legion é confuso. Não entendi direito o que o diretor quis com aquilo: começamos com um São Miguel Arcanjo caído do céu pq se negou a obedecer as ordens de Deus de acabar com a humanidade (hã?) Poizé, o Todo Poderoso desistiu da raça humana e enviou sua legião de anjos para dizimir o mundo.

Só que Miguel ainda acredita nos homens e veio à terra (cortou suas asas com uma faca  do rambo!) para nos defender... a continuação da raça humana dependia - não ficou muito claro pq - do nascimento de uma criança, bb sem pai, gerado sem querer, por uma garçonete que trabalha a beira de uma estrada no meio do nada. A garçonete tem um fã, um homem bonzinho que ao longo dos anos vem limpando as merdas que ela faz, com a fidelidade de um cão. Obviamente, a garçonete não lhe dá o devido valor.

A coisa começa a ficar mais non sense pq a legião de anjos de Deus se apodera dos corpos dos homens (eles ficam com aspecto de zumbis mas são agéis e fortes como demônios. Só que eles morrem facinho) e todos vão atentar contra a vida da criança. Num dos vários combates, um São Gabriel right tech desce do céu pra lutar contra São Miguel. No meio dessa confusão é que sai a frase que gostei.

"vc está dando o que ele quer. Eu vou dar o que ele precisa" hum...

Que há de haver uma distinção clara entre querer e precisar creio que ninguém discuta. (embora na prática a gente se confunda muitas vezes) O mundo ainda não acabou pq pelo menos Deus tem esse senso de prioridade bem apurado. Ele tem que ter. Pq o nosso senso é nada confiável.

A danação do homem é precisamente querer o que não precisa, mover mundos para conseguir e morrer de tédio quando tem a coisa nas mãos. Dai querer outra coisa, e seguir querendo e querendo sem saber o que realmente precisa. Do jeito que falo parece que é tudo muito óbvio, mas gastei 2 anos de terapia para começar a prestar atenção no que preciso. (e gastarei uma vida inteira pra me livrar dos enroscos decorrentes de querer tudo-ao-mesmo-tempo-agora! hohoho)

Não é tarefa fácil, asseguro. Já constatei que preciso de bem menos do que a maioria de mulheres ao meu redor. Mas é aquilo: "menos é mais", de modo que mesmo pouco fica complicado alcançar pq normalmente o que eu preciso esbarra no que vc está disposto a dar.

Não é uma merda? Como eu vou saber até onde são legítimas as minhas precisâncias?

Se eu preciso, é legítimo e vc não quer dar, com quem eu reclamo? (de maneira geral, eu vou ali no cantinho, sento e choro, depois faço uma piada amarela e sigo... ♬ e ninguém aqui vai notar que eu jamais serei a mesma ♬)

Querências a gente troca uma por outra com relativa facilidade... já as precisâncias são (ainda!) mais complicadas. E pra piorar, parece-me que algumas delas vem com defeito de fábrica: pra ficar num exemplo só, eu preciso de inteireza. De gente estando no que faz, sendo, sentindo e falando com alguma honestidade e sem querer pedir demais, imaginem, prestando atenção no impacto que isso causa nos outros. 

Pq eu preciso disso é um mistério, não escolhi, juro que não. É utópico esperar isso das pessoas (embora a vida nos surpreenda as vezes!) e é hipócrita de minha parte dizer que preciso de algo que nem eu mesma estou disposta a dar sempre. (vivo me cansando de ser eu mesma!)

Que mundo preciso habitar, hein? tsc

13 abril 2010

SOLIDÃO AMIGA DO PEITO

Dizem que o diabo mora nos detalhes... M-e-n-t-i-r-a!

Deus mora nos detalhes. O diabo mora é no vazio:

Não naquele vazio que Drummond achou que era falta, ausência. Felizmente ele descobriu a tempo de nos ensinar que esse tipo de vazio é apenas um "estar em si".

Não naquele que Nietzsche tomou por companheiro.

Não naquele fundamental, transcendente e quase terapêutico que faz a gente se perguntar se Sartre não estaria certo quando disse que o inferno é o outro...

A casa do diabo é aquele vazio que ocupa todo o espaço que a gente dá e ainda nos toma o restinho que sobrou, o que a gente não daria, se pudesse. É o vácuo que responde pelo nome que chamarmos e que se alimenta basicamente do que a gente pensa que é bom, abstraindo o fato de que a vida real quase nunca é tão boa quanto a imaginação. 

As vezes estar junto é - diabolicamente - uma forma de solidão. Não é um bom álibi se esconder de si mesmo no outro!?! Eu costumava dizer sem um pingo de vergonha que tive sorte por encontrar bons refúgios: pessoas que me ajudavam a esquecer de que estava me escondendo... pode até haver troca mas isso não é comunhão e só por isso não pode dar bons frutos! 

Agora entendo melhor o que se passa e comigo, perto de mim e sempre tão longe de tudo...

* inspirado numa crônica de Rubens Alves, em "Um Mundo Num Grão de Areia"


02 abril 2010

PQ TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS


E é precisamente por isso que não vou sequer escrever a que eu tenho em mente... corro o seríssimo risco de enviar. rs

Dia desses fui a um show do Vander Lee e voltei pra casa levemente irritada por ter me permitido vaguear sem resistência alguma pelas melhores lembranças que tenho de um certo mocinho a quem eu já deveria ter dado tchau há meses.

(Juro que já tentei. Várias vezes. Quase que a cada semana invento uma nova-resolução-para-exorcizar-esse-ser mas deve me faltar força de vontade, pq até agora todas falharam. A resolução desta semana é parar de fazer comentários amargos. Já que não consigo me livrar dele, vou tentar me livrar do vício de falar dele, entendem? 

Mas voltando: foi mais um daqueles shows que eu adoro: assisti sentadinha, platéia civilizada, só voz e violão. Delícia. A pretensa carta foi se escrevendo praticamente sozinha, entre um verso mais dolorido e outro que diz o que eu diria, se tivesse talento... antes do bis eu já tinha tudo mentalmente rascunhado e fiquei pasma com o nível de pieguice da coisa. E mais pasma ainda pq até agora estou achando tudo perfeitamente razoável de se dizer.

Bem, perfeitamente razoável não. Nem tudo que é verdadeiro é razoável. Pode ser verdadeiro mas NÃO PODE ser razoável assinar nada que contenha "todo atalho finda em seu sorriso". Não nessa situação, caraleos!

Morro de saudade e a culpa é dele. Assumo.

Ando meio louca por ainda querer esse homem. Assumo.

Tudo que faço só tem me servido para lembrar ainda mais o que quero esquecer. Assumo.

Mas jesuiscristo, pq não basta assumir só pra mim? Quem mais precisa dessa confissão? Já é suficientemente patético a gente pensar essas coisas! Escrever dá forma aos sentimentos! (e nesse caso em que a reciprocidade acena de beeeem longe, eles são como balões infláveis: lindos e inúteis)

N.A: ah pessoas, que seria de mim se não fosse esse rascunho? Já perdi 97% da vontade de dizer qualquer coisa a esse mocinho duzinfernu... agora só estou me sentindo meio besta, mas isso não é nenhuma novidade pra vcs...


28 março 2010

MARIA DAS DORES


Maria das Dores foi o nome que dei à pessoa sobre quem vou escrever nas próximas linhas. Julgo procedente a observação de Daniel, que disse pra eu usar outro nome quando fosse falar dos outros aqui. 

Maria das Dores tem 40 anos, um noivo cabeça de bacalhau, dois ouvidos de turbeculoso, uma língua venenosa e TODAS as doenças existentes (e também as que aguardam um batismo cristão científico). Trabalha comigo há 1 ano e não conta com a minha mais remota simpatia.

Nesta semana que passou, pra me distrair um pouco (e já pensando num texto, confesso!) resolvi anotar todas as suas queixas. Motivo razoável para isso não existe. Foi só um espírito de porco que baixou de frente, me deixando inclinada a esse tipo de inutilidade.

O fato é que ela não repetiu nenhum sintoma. Para cada dia houve uma dor diferente e insuportável lhe atrapalhando a vida. Ela já está tão habituada a isso que no meio de uma conversa qualquer é capaz de interromper o que está dizendo, pedir desculpas, dizer o que lhe dói no momento e retomar o assunto. Comigo acontece as vezes de lhe chamar, ela responder imediatamente, se desculpando por não ter me ouvido, mas-é-que-minha-cabeça-está-explodindo-e-não-consigo-pensar-direito. Impressionante.

Todo mundo conhece gente assim. Eles estão por toda parte. Meu interesse pelo assunto nasceu quando descobri que eles não são, necessariamente, velhos: Penadinho tem apenas 30 anos e já acumula mais conhecimentos médicos que sua avó, seu pai e sua mãe JUNTOS! Foi com ele que aprendi que sexo é um anti histamínico natural. Para ser justa devo acrescentar que sua hipocondria já me poupou 2 consultas. Usei o que ele prescreveu e deu hiper certo. 

Mas o que leva alguém a chegar a esses níveis? Não pode ser só o medo de morrer... 

Será que pode ser considerado como um vício?

Será que tem cura?

Não é intrigante a pessoa ter tanto pavor de ficar doente que acaba ficando mesmo?

Partindo para os meus achismos: Maria das Dores demanda doses extras de atenção. (Penadinho também, mas lançava mão de outros expedientes para conseguir a minha) Mas pq acha que se dizendo permanentemente avariada ela conseguiria? Isso funciona na infância, sem dúvidas, mas como ela ainda não enxergou que não funciona com adultos? Aliás: será que ela tem, semi conscientemente, a intenção de atrair a atenção dos outros com seu calvário in box? O que a faz supor que pode funcionar? E se não tem intenção, pq diabos faz isso???

(percebam que ela só não tem a minha simpatia, mas a minha curiosidade ela tem, inteirinha rs)

Bom, voltando. Dai que na sexta feira eu me senti tentadíssima a lhe entregar o papelzinho com suas doenças da semana. Ia ser bem escroto da minha parte e só por isso não fiz, mas perdi uns bons minutos imaginando qual seria a reação. Será que ela me acharia escrota e ponto? Nem ia parar pra pensar se era possível a um vivente sentir uma coisa diferente a cada dia, todo dia?

Jamais saberemos. tsc

21 março 2010

SÉRIE O BONEQUINHO VIU Nº 5

Dia desses eu fui ver a peça tri-recomendada de Elisa Lucinda:



Estou encantada! É tudo que consigo dizer a respeito. Deixo pra vcs a essência da coisa:

Libação

É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura, a proliferação 
os cromossomiais encontros,
os brotos, os processos caules, 
os processos sementes, 
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores...

As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas, 
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas

É da substância do átomo
ser partível, produtivo, ativo e gerador 
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza

É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la,
não roê-la com nossos minúsculos gestos ratos, 
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la
, cheio que é o seu princípio 

Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido do estado potencial de futuro 

Peço ao ano-novo
Peço aos deuses do calendário 
Peço aos orixás das transformações: 
nos livrem do infértil da ninharia!
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha", desumana, sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha.
 

A vida não tem ensaio mas tem novas chances: 
Viva a burilação eterna! 
Viva a possibilidade, o esmeril dos dissabores! 
abaixo o estéril arrependimento,
a duração inútil dos rancores! 


Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente e a virgindade dos dias que virão!

11 março 2010

BEIJO MULTIMÍDIA

Amor ensina o óbvio. É o que eu mais gosto de aprender.

Nem sempre mereço atenção. As crianças têm o direito de serem tolas, por isso são mais sábias.

Minha namorada narrava as diferenças entre o Playstation e o Nintendo Wii e mencionou a expressão device. Eu nunca descobri o significado. No passado, utilizei o termo pela intuição, coitado de quem me ouviu.

- O que é?

- Está brincando?

- Não sei, o que é?

- Para de gozação!

Admiti que conhecia, pois estava ficando chato. Já me sentia um ignorante. Como desconheço device aos 37 anos? Como?

Ela anteviu que tirava sarro dela, que me fingia de burro para que explicasse à toa. Como ninguém quer ser idiota, fica complicado salvar a idiotice alheia.

Eu era burro mesmo. Tentei resolver essa lacuna e abrir espaço para outras ignorâncias. Confesso que careci de coragem para teimar e imprimi uma risada apaziguadora. Soou como brincadeira.

O que me arrebata é a chance de ser puro. Como muitos juram que sou malandro e maquiavélico, arriado e abusado, dificilmente alguém confia na minha limitação. A curiosidade sofre os efeitos colaterais da reputação e não recebe reforço.

De vez em quando, Cínthya esquece quem eu sou para me amar mais. E é minha melhor professora: Teimei em entrar com uma ameixa em seu carro. Vermelha, lustrosa, com todo o verão dentro. Estávamos atrasados. Costumo comê-la com o rosto inclinado ao chão para derramar o prejuízo no tapete dos pés. Não estudei como destroçaria a fruta em seu carro. Sentei no impulso, traindo minha atitude selvagem e desprezando o encolhimento do espaço.

Dei uma mordida e o sumo escorreu para a calça; ela olhando, limpei. Na segunda investida, já de pernas abertas, o líquido infestou o banco; ela olhando, disfarcei. Quando consegui espirrar no vidro, ela interferiu na operação, não havia como se manter distante. Ou falava ou seu twingo se transformava num liquidificador:

- Vem cá, por que não chupa ao morder?

- Chupar ao morder? Posso?

- Claro, depois que larga os dentes, chupa.

Ela aceitou meu despreparo e contornou o caroço e mordeu e chupou perfeitamente. Engoliu a lasca e o suco. Vi que podia. Pena que não tinha mais ameixas para exercitar.

- Onde aprendeu?

- Em Constantina, sou campeã para não me sujar.

Ainda não perguntei sobre os efeitos colaterais dessa aula. Mas não duvido que não tenha influenciado até minha forma de beijá-la.
__________________________________
Fabrício Carpinejar, aqui ó


Eu já disse por aqui que há um correspondente feminino para a letra de "garotos" do Leoni? Pois há. Talvez por gravar ainda, mas há. Não tenho dúvida.

Machos que inspiram esse tipo de música andam alguns passos a frente do resto de sua raça e não encontramos em qualquer esquina, obviamente. Eu mesma, pra ser sincera, só conheço dois. (vindo de mim não é um número que mereça espanto, dado o tamanho ridículo do meu espaço amostral!) 

Os donos dos dentes e sorrisos que mastigam meu juízo não têm talento pra escrever como Carpinejar, pq perfeição só existe no céu. Mas não posso deixar de fantasiar: qualquer um que consiga dizer sem dizer como ele fez no texto acima tem TODOS os predicados para inspirar um CD inteirinho... ui!


06 março 2010

PROJETO FAMÍLIAS RENOVADAS

Li dia desses na BBC Brasil que uma arquidiocese italiana organizou um curso para sogras aprenderem a não perturbar a vida dos casais.


Achei sensacional. (e levemente consolador: é sempre bom ver nos jornais alguma iniciativa útil, já que a Igreja só vira manchete se for escândalo sexual ou quando alguma autoridade eclesial diz ou faz alguma coisa imbecil)  

Pode funcionar. Creio que boa parte das sogras católicas deve ser beeeem beata. Se ouvirem as obviedades relativas ao assunto dentro da Igreja, talvez tomem como preceito cristão hohoho

A idéia é boa mas não vai à raiz do problema. Para que "sogra" deixe de ser sinônimo de encrenca, na minha modesta opinião deveriam pensar num curso para mães, que criando filhos emocionalmente melhores, formarão melhores pais, que quando se tornarem avós serão melhores também. Cortando o cordão umbilical na hora certa - no parto!, criando meninas e meninos com os mesmos direitos e deveres, dando limites, construindo valores baseados no "ser" e não no "ter" e tal & tudo. A coisa não se resolve em poucos anos... 

Minha tese é baseada na atenta observação de um ser que só aprendeu a passar suas roupas aos 30 anos e por absoluta falta de opção: meu irmão. É que sra. minha mãe, depois de longos e honrosos anos de trabalho, se aposentou. Hoje em dia ela é só avó. Não dedica mais 40 horas semanais do seu tempo administrando o lar de modo que ou ele se mexe ou anda sujo e amassado. Pq eu - que lavo e passo minha roupa desde os 13 anos, me recuso sorridentemente a ratificar com a minha conivência essa idéia de jerico que homem não foi feito para tarefas domésticas.

Faço tudo que posso por uma adaptação menos traumática: já ensinei o caminho da máquina de lavar, apresentei a cafeteira, contei que se o ovo não estiver gelado, não vai espirar quando cair na panela e demonstrei numa aula prática que o único item auto limpante da casa é o forno: assisti, indiferente, ele precisar comprar cuecas e meias pq não tinha mais NENHUMA limpa ...

Sinhozinho não só aprendeu rápido como não lhe caiu nenhum dedo! Até pq ele - como todos os outros homo sapiens - tem uma noção razoável da dinâmica da coisa: ele sabe que se alguém sentar com o biquini molhado no banco do carro vai ficar fedendo jaula. Só não aplica o mesmo conceito à toalha molhada que deixa sobre a cama pq sua digníssima genitora lhe tirou a oportunidade de constatar a verdade da teoria cada vez que recolheu a peça e estendeu no varal.

Mas e dai? Dai que eu acho que se minha mãe tivesse se ocupado menos com o filho - além de não ter criado um homem quase imprestável e potencialmente um estorvo de marido - ela teria vivido melhor a própria vida e não precisaria se ocupar com a alheia.

Nada me tira da cabeça que sogras não nascem com vocação pra capetice: é por falta de assunto, por não saber o que fazer com o tempo livre que se metem tão desavergonhadamente em assuntos que não lhes dizem mais respeito.

28 fevereiro 2010

ALTER CLARA

- Oi bunitinha!

- Vc???? Que aconteceu, eu morri? Jurava que viria um anjo me buscar.

- Não. Vc está dormindo e é só nessas horas que vc me escuta.

- Quantos anos temos agora?

- 40.

- Nós não pintamos cabelo ainda?

- Não. Nossos fios brancos continuam discretos. São pouco mais do que os 4 que vc tem hoje e ainda não reclamam por tintura.

- Que bom.

- Pq vc demorou tanto pra vir? Te espero desde 2005!

- É, eu fiquei comovida quando li o que escreveu...

- E o que vai me contar do futuro?

- Do futuro? NADA!

- Vim só pra te lembrar o que já constatamos há alguns anos: devemos agradecer à vida por não dar exatamente o que a gente quer.

- ahan, repeti isso inda hoje cedo.

- Mas como assim vc vem do futuro pra me repetir o passado? E tem graça isso?

- Se eu tivesse vindo na época de Big Ghost e contado o que ele ia fazer, vc teria me ouvido e pulado fora enquanto era tempo?

- Não...rs

- Nos anos de nossa beatice, se eu contasse que vc ia decidir abandonar os sacramentos, acreditaria?

- NÃO!!!!

- Se eu tivesse vindo há 2 anos pra adiantar como terminaria a coisa lá com Penadinho? E se eu contasse que seria ele a te apresentar o Cris?

- Eu não ia acreditar pq é novelesco demais.

- Tá vendo? Vc não acredita nem em vc mesma. Não vou perder nosso tempo.

- Enton vc driblou sabe Deus o que pra retroceder no tempo e me dizer uma coisa que eu já sei?

- Não, vim dizer também que eu acho que vc está repetindo o mesmo erro que cometeu na época da faculdade, quando estava empacada em Big Ghost e não viveu o que era pra viver com o mocinho com quem dividiu a casa do 49...

- O que eu TAMBÉM já sei...

- E - como diria nossa querida e mui saudosa terapeuta - o que vc vai fazer com isso?

- Se eu soubesse acho que vc não teria vindo me ver agora... touchè
!

- touchè! Eu tenho tanto orgulho de vc!

- Me diga só que vai passar.

- Vai passar.

- Vai passar logo?

- Depende de vc...


N.A.: Há alguns anos que penso nisso. E ontem vi aqui mas a idéia original é
daqui

24 fevereiro 2010

CLARA DEL VALLE CASTRO VARGAS

Ando meio totalitária essa semana: já esculhambei colega de trabalho em e-mail-com-cópia-pra-chefe, já fingi que não escutei pra não ter que responder e não fui solidária com Jana no nosso chat corporativo... mas depois do Ric me contar que o auxílio reclusão é maior que salário mínimo (presidiário tem que receber salário, caraleos?) e de presenciar uma séria discussão sobre quem deveria ser eliminado no BBB e de ouvir que o imbecil que diz que só gays têm aids "merece ganhar pq pelo menos ele é honesto" eu estourei minha cota poliânica e esqueci que meu país é lindo, que os artistas brasileiros são ótimos, que quase todos os brasileiros que eu conheço são ótimos... (esqueci também que sou uma entusiasta do cinema nacional e praticamente não ouço outro tipo de música que não seja MPB e praticamente não tenho em minhas estantes livros de escritores que não sejam latinos!)

Estou chatinha demais pra redigir algo novo, enton deixo texto atribuído a Jabor para destilar toda a minha indignação por esse país de mierda e esse povinho igualmente de mierda:

Brasileiro é um povo solidário. Mentira.

Brasileiro é babaca: eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida; pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza; aceitar que ONG's de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade; não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária. É coisa de gente otária.  

Brasileiro é um povo alegre. Mentira.

Brasileiro é bobalhão: fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada. Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai. Brasileiro tem um sério problema. Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.

Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira.

Brasileiro é vagabundo: O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo. O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo. 

Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.

Brasileiro é um povo honesto. Mentira.

Já foi. Hoje é uma qualidade em baixa. Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso. Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.

90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira.

Já foi. Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da Guerra do Paraguai ali se instalaram. Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha outra alternativa e não concordava com o crime. Hoje a realidade é diferente.
Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como 'aviãozinho' do tráfico para ganhar uma grana legal... se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas. Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.

O Brasil é um pais democrático. Mentira.

Num país democrático a vontade da maioria é Lei. A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente. Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia. Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.

Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores). Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar. 

Democracia isso? Pense!

O famoso jeitinho brasileiro. Na minha opinião, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política brasileira. Brasileiro se acha malandro, muito esperto. Faz um 'gato' puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar. No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto... malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí? Afinal somos penta campeões do mundo né???

O Brasil é o país do futuro. Caramba , meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos. Dessa vergonha eles se safaram... Brasil, o país do futuro!? Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.

Deus é brasileiro.

Puxa, essa eu não vou nem comentar...

O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira. Para finalizar tiro minha conclusão: 

O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse texto, meus sentimentos, amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente. Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta. Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão. Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante: á
gua doce!

Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?