Nos próximos dias estarei por ai...

Já vou avisando aos parcos e queridos leitores que depois dessa trip os post´s ficarão um cadim monotemáticos hohoho
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Já vou avisando aos parcos e queridos leitores que depois dessa trip os post´s ficarão um cadim monotemáticos hohoho





Dizem que o diabo mora nos detalhes... M-e-n-t-i-r-a!
Deus mora nos detalhes. O diabo mora é no vazio:
Não naquele vazio que Drummond achou que era falta, ausência. Felizmente ele descobriu a tempo de nos ensinar que esse tipo de vazio é apenas um "estar em si".
Não naquele que Nietzsche tomou por companheiro.
Não naquele fundamental, transcendente e quase terapêutico que faz a gente se perguntar se Sartre não estaria certo quando disse que o inferno é o outro...
Agora entendo melhor o que se passa e comigo, perto de mim e sempre tão longe de tudo...
* inspirado numa crônica de Rubens Alves, em "Um Mundo Num Grão de Areia"


Maria das Dores foi o nome que dei à pessoa sobre quem vou escrever nas próximas linhas. Julgo procedente a observação de Daniel, que disse pra eu usar outro nome quando fosse falar dos outros aqui.
Maria das Dores tem 40 anos, um noivo cabeça de bacalhau, dois ouvidos de turbeculoso, uma língua venenosa e TODAS as doenças existentes (e também as que aguardam um batismo cristão científico). Trabalha comigo há 1 ano e não conta com a minha mais remota simpatia.
Nesta semana que passou, pra me distrair um pouco (e já pensando num texto, confesso!) resolvi anotar todas as suas queixas. Motivo razoável para isso não existe. Foi só um espírito de porco que baixou de frente, me deixando inclinada a esse tipo de inutilidade.
O fato é que ela não repetiu nenhum sintoma. Para cada dia houve uma dor diferente e insuportável lhe atrapalhando a vida. Ela já está tão habituada a isso que no meio de uma conversa qualquer é capaz de interromper o que está dizendo, pedir desculpas, dizer o que lhe dói no momento e retomar o assunto. Comigo acontece as vezes de lhe chamar, ela responder imediatamente, se desculpando por não ter me ouvido, mas-é-que-minha-cabeça-está-explodindo-e-não-consigo-pensar-direito. Impressionante.
Todo mundo conhece gente assim. Eles estão por toda parte. Meu interesse pelo assunto nasceu quando descobri que eles não são, necessariamente, velhos: Penadinho tem apenas 30 anos e já acumula mais conhecimentos médicos que sua avó, seu pai e sua mãe JUNTOS! Foi com ele que aprendi que sexo é um anti histamínico natural. Para ser justa devo acrescentar que sua hipocondria já me poupou 2 consultas. Usei o que ele prescreveu e deu hiper certo.
Mas o que leva alguém a chegar a esses níveis? Não pode ser só o medo de morrer...
Será que pode ser considerado como um vício?
Será que tem cura?
Não é intrigante a pessoa ter tanto pavor de ficar doente que acaba ficando mesmo?
Partindo para os meus achismos: Maria das Dores demanda doses extras de atenção. (Penadinho também, mas lançava mão de outros expedientes para conseguir a minha) Mas pq acha que se dizendo permanentemente avariada ela conseguiria? Isso funciona na infância, sem dúvidas, mas como ela ainda não enxergou que não funciona com adultos? Aliás: será que ela tem, semi conscientemente, a intenção de atrair a atenção dos outros com seu calvário in box? O que a faz supor que pode funcionar? E se não tem intenção, pq diabos faz isso???
(percebam que ela só não tem a minha simpatia, mas a minha curiosidade ela tem, inteirinha rs)
Bom, voltando. Dai que na sexta feira eu me senti tentadíssima a lhe entregar o papelzinho com suas doenças da semana. Ia ser bem escroto da minha parte e só por isso não fiz, mas perdi uns bons minutos imaginando qual seria a reação. Será que ela me acharia escrota e ponto? Nem ia parar pra pensar se era possível a um vivente sentir uma coisa diferente a cada dia, todo dia?
Jamais saberemos. tsc
Dia desses eu fui ver a peça tri-recomendada de Elisa Lucinda:

Estou encantada! É tudo que consigo dizer a respeito. Deixo pra vcs a essência da coisa:
Libação
É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura, a proliferação
os cromossomiais encontros,
os brotos, os processos caules,
os processos sementes,
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores...
As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas,
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas
É da substância do átomo
ser partível, produtivo, ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la,
não roê-la com nossos minúsculos gestos ratos,
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la, cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido do estado potencial de futuro
Peço ao ano-novo
Peço aos deuses do calendário
Peço aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia!
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha", desumana, sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha.
A vida não tem ensaio mas tem novas chances:
Viva a burilação eterna!
Viva a possibilidade, o esmeril dos dissabores!
abaixo o estéril arrependimento,
a duração inútil dos rancores!
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente e a virgindade dos dias que virão!


Eu achava que tudo que podia ser dito sobre a ditadura tinha se esgotado em Batismo de Sangue... Até assistir Tempos de Paz: ainda não tinha assistido nada do ponto de vista dos torturadores.
O bonequinho aplaude de pé por 1 minuto inteirinho a giga interpretação de Dan Stulbach:
Percam os 10 minutinhos do vídeo. Vale muiiiiito a pena!
Segue íntegra do monólogo: (esse texto em espanhol deve ser de chorar muito no cantinho, hein tri?!)
Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,já que me tratais assim,
que delito cometi contra vós outros, nascendo?;
que, se nasci, já entendo qual delito hei cometido:
bastante causa há servido vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior do homem é ter nascido!
E só quisera saber,para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,o delito de nascer,
em que vos pude ofender por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?
Nasce a ave, e com as graças que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma, ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas corta com velocidade,
negando-se à piedade do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma, tenho menos liberdade?
Nasce a fera, e com a pele que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel, a humana necessidade lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto, tenho menos liberdade?
Nasce o peixe, e não respira,aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira, num medir da imensidade
co'a tanta capacidade que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,tenho menos liberdade?
Nasce o arroio, uma cobra que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata, por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obra da natura em piedade
que lhe dá a majestade do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida, tenho menos liberdade?
Em chegando a esta paixão um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão, nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave, exceção tão principal, que Deus a deu a um cristão, ao peixe, à fera, e a uma ave?
Monólogo de Segismundo - La Vida Es Sueño - de Pedro Calderón de la Barca

Sábado fui ver o espetáculo que Beth Goulart montou costurando a biografia, a obra e entrevistas de lady Lispector (Mô, é imperdível!)
Clarice é muito pessoal em seus escritos e todos os seus personagens tem algo de si mesma. Acho que Joana de “Perto do coração selvagem” talvez seja a mais parecida com sua essência criativa e indomável. Ana do conto “Amor” é a dona de casa e mãe dedicada que Clarice certamente foi. Lori de “Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres” vive em cena as descobertas do amor e A Mulher do conto “Perdoando Deus” é uma bem humorada auto-critica."
Beth Goulart
Sai do teatro achando uma verdadeira maldição pensar tanto. rs